Eu sou do tempo de... Uma frase que denuncia a idade de quem a diz, mas que, para mim, dá-me alguma legitimidade para dizer que assisti ao nascimento de franquias que marcaram uma geração. Séries como Tony Hawk's Pro Skater ou Crazy Taxi, que recentemente receberam ou estão prestes a receber uma nova oportunidade através de remakes.
E menciono precisamente estes dois nomes por uma razão muito simples. Na minha cabeça, tiveram um filho. E esse rebento herdou a jogabilidade assente em truques e combos de Tony Hawk, ao mesmo tempo que foi buscar a Crazy Taxi a velocidade, a irreverência e até uma boa parte da sua identidade visual. O resultado é um jogo que consegue parecer familiar e, ainda assim, surpreendentemente original.
E se um comboio pudesse fazer truques como num jogo de skate?
É assim que se apresenta Denshattack!.
À primeira vista, a premissa parece pouco mais do que uma piada levada demasiado longe. Afinal, quem é que olha para um comboio e pensa imediatamente em grinds, saltos, drifts e manobras aéreas? A resposta é Emi, a irreverente maquinista que conduz esta aventura e transforma a sua locomotiva numa autêntica máquina de truques. A verdade é que o conceito funciona surpreendentemente bem e acaba por ser a maior força do jogo. Bastam poucos minutos ao comando para perceber que há aqui muito mais do que uma ideia engraçada.
O objetivo passa por atravessar percursos cada vez mais exigentes, mantendo a velocidade e acumulando o maior número possível de pontos através de truques e combinações. Tal como nos clássicos jogos de skate, o segredo está em ligar cada movimento ao seguinte sem perder o ritmo, enquanto se aproveitam as várias linhas do percurso para construir combos cada vez mais longos.
É uma jogabilidade profundamente arcade, daquelas fáceis de compreender mas difíceis de dominar. Nos primeiros minutos é natural cometer erros e embater constantemente nos obstáculos, mas, à medida que começamos a dominar o comportamento do comboio, tudo ganha uma fluidez quase hipnótica. Existe uma enorme satisfação quando conseguimos encadear um percurso inteiro sem interrupções.
Felizmente, Denshattack! sabe também variar a forma como apresenta os seus desafios. Embora a base da jogabilidade se mantenha sempre a mesma, a campanha alterna entre diferentes tipos de níveis. Há percursos mais lineares, onde o objetivo passa por chegar rapidamente à meta enquanto acumulamos o maior número possível de pontos, mas também áreas mais abertas que nos convidam a explorar o mapa e a cumprir diferentes objetivos antes de avançar. Pelo meio surgem ainda corridas contra rivais, que obrigam a conjugar velocidade, domínio das mecânicas e um bom conhecimento dos atalhos.
A ajudar a manter esse ritmo está também a forma como a câmara muda constantemente de perspetiva durante as corridas. Em vez de se limitar a um único ângulo, este título alterna entre diferentes enquadramentos consoante a secção da pista, tornando a ação mais dinâmica e dando a sensação de que cada percurso tem uma identidade própria. É um detalhe simples, mas que acaba por contribuir para mitigar a repetição ao longo da aventura.
O melhor, no entanto, é a forma como Denshattack! brinca com os seus cenários. Porque convenhamos... quem é que não quer ver a Emi a levar o seu comboio para cima de um barco, a deslizar no topo de uma roda-gigante ou a transformar o próprio cenário numa gigantesca pista de skate improvisada? É este tipo de ideias que dá personalidade aos percursos e faz com que seja difícil não abrir um sorriso durante a aventura.
Visualmente, faz-me lembrar de imediato Crazy Taxi. Não por copiar diretamente os seus cenários, mas pela direção artística colorida, pelos ambientes urbanos cheios de vida, pela sensação constante de velocidade e pela forma como toda a apresentação transmite aquela energia arcade tão característica da SEGA no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Ainda assim, o jogo consegue construir uma identidade própria e evita ser apenas um exercício de nostalgia.
A banda sonora merece igualmente destaque. Não é daquelas que vamos ouvir em repetição fora do jogo, mas durante cada corrida cumpre exatamente o seu papel: manter a adrenalina elevada e acompanhar o ritmo constante da ação. A sonoplastia acompanha esse trabalho na perfeição. O som metálico dos grinds, o impacto das aterragens e o efeito de cada salto ajudam a dar peso às manobras e fazem com que cada combo seja ainda mais gratificante de executar. É daqueles pormenores que facilmente passam despercebidos, mas cuja ausência seria imediatamente notada.
Naturalmente, nem tudo corre sobre carris.
A curva de aprendizagem é bastante mais exigente do que aquilo que a aparência descontraída faz prever. Dominar todas as mecânicas exige tempo e alguma persistência, especialmente quando o jogo começa a pedir percursos praticamente perfeitos. Além disso, depois de desbloqueadas as principais mecânicas, alguns desafios acabam por reutilizar demasiadas ideias, fazendo com que a sensação de novidade desapareça mais cedo do que seria desejável.
Conclusão
Ainda assim, é precisamente por não tentar ser igual aos outros que Denshattack! acaba por conquistar. Num mercado onde tantas propostas seguem fórmulas já conhecidas, este pequeno projeto prefere arriscar numa ideia completamente improvável... e consegue fazê-la funcionar. Para quem cresceu com Tony Hawk, Crazy Taxi ou até Jet Set Radio, é impossível não sentir um sorriso ao longo da aventura.
Nunca pensei escrever esta frase, mas aqui estamos: agora também posso dizer que sou do tempo em que uma maquinista conseguiu transformar um comboio num skate.
O melhor
- Jogabilidade arcade extremamente satisfatória.
- Conceito original muito bem executado.
- Cenários criativos e cheios de personalidade.
O pior
- Curva de aprendizagem elevada.
- Repetição de alguns objetivos.
Nota do GameForces: 8/10
Título: Denshattack!
Desenvolvedora: Undercoders
Editora: Fireshine Games
Ano: 2026
Autor da Análise: Filipe Martins
Nota: Esta análise foi realizada com base na versão digital para a PlayStation 5, através de um código gentilmente cedido pela editora.
Análise | Denshattack! – Um Skate Improvável
Reviewed by Filipe Martins
on
julho 15, 2026
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