Foi em 2020, numa fase formativa
deste site e deste redator, que Shovel Knight: Treasure Trove, da Yacht Club
Games, aterrou no meu colo. Numa decisão sem precedentes ou réplicas na
história do site, dividi a cobertura do meu segundo código para análise em duas
publicações distintas. Podem atribuir esta decisão à imaturidade do redator; de
amor-próprio ferido, justifico-a com a excecionalidade do jogo. Esta abordagem atesta
o seu colossal volume de conteúdo; o veredito estelar de 9.5 reflete a sua
qualidade.
Escusado será dizer que ficamos rendidos ao trabalho excelso da desenvolvedora indie e nunca mais deixamos os seus projetos internos fugirem de vista. Agarramo-nos a Shovel Knight Pocket Dungeon, Shovel Knight Dig com unhas e dentes… contudo, não era por esses spin-offs que ansiávamos. Aguardávamos pelo próximo grande lançamento da Yacht Club, um com o nível de ambição e afinco da experiência que os colocara no mapa. Esperávamos, concretamente, por Mina the Hollower – um IP que, parafraseando o diretor do estúdio, estaria para Zelda como Shovel Knight está para Mario.
Não precisávamos desta declaração
explícita para estabelecer esta ligação. O belo, deliberado grafismo 8-bit e as
inesquecíveis composições chiptune de Jake Kaufman remetem imediatamente para
a velhinha Game Boy Color. Não necessariamente aquele tijolo com um ecrã
mirrado, mas uma Game Boy que transcende os seus limites físicos: uma que
perdura apenas na nossa memória idealizada com uma palete de cores exuberante,
animações enfáticas e um chip de som mais sofisticado. Aliando este
nostálgico cartão de apresentação à perspetiva superior (top-down) de
onde comandamos a protagonista, esta representação cognitiva remete para um jogo específico: The Legend of Zelda: Link’s Awakening e o compacto pedacinho de sonho
que é o seu mundo.
Fora do âmbito gráfico, quando
olhamos para a estrutura do mundo e história de Mina, somos puxados para outra
epopeia de Link. Nesta campanha, acompanhamos a inventora Mina na sua missão de
reparar os seis Spark Generators que sustentam a “próspera” cidade de Ossex e
que a protagonista construíra no passado. Sob este pretexto, somos convidados a
percorrer os trilhos da Tenebrous Isle em busca destas torres e, à semelhança de
The Legend of Zelda: A Link Between Worlds, temos total liberdade para decidir
a ordem em que o fazemos. Naturalmente, podemos relegar a missão principal a um
post-it mental quando assim desejarmos e dedicarmo-nos a procurar os incontáveis
segredos escondidos pelo mapa, a ouvir o que as dezenas de NPCs têm para nos
contar, e assumir como nossos os seus problemas pessoais.
Porém, é aqui que este decisivo rótulo
deixa de colar na perfeição a Mina. Mina the Hollower não é bem um Zelda,
ou, pelo menos, não é o sabor de Zelda a que nos acostumamos. Ambas as séries
testam o utilizador em combate e quebra-cabeças, mas, em Mina the Hollower, uma
valência prevalece sobre esta díade: o platforming. Nas masmorras de The
Legend of Zelda, entretemos questões como “Onde encontro a chave desta
porta?”, ou “Como posso manipular os níveis de água e lava para desbloquear
aquela entrada?”; em qualquer sala do projeto da Yacht Club, debruçámo-nos
sobre uma só dúvida: “Como é que, apenas a saltar e escavar, vou chegar à outra
ponta da sala?”. Ao passo que Zelda implementa quebra-cabeças como fins
em si mesmos, Mina emprega os seus puzzles em serviço de platforming,
aproximando-se das filosofias particulares de Link’s Awakening e, mais intimamente,
de Celeste e do próprio Shovel Knight.
E sim, ouviram bem: saltar e
escavar. Não foi somente pelo savoir-faire mecânico que a ratinha foi
alistada para esta missão; sendo uma Hollower, a personagem é capaz de escavar
o solo e mover-se sob a superfície por um curto espaço de tempo. Ei, Yacht Club
Games, depois de um Shovel Knight, a próxima vossa grande
ideia é uma Hollower? Esgravataram desesperadamente o chão à procura de ideias,
e olharam para as unhas cheias de terra como Newton para a sua maçã?
Esta mecânica principal podia ser um refúgio na zona de conforto, mas a perícia da Yacht Club Games consagra-a como um golpe de génio. De um só remate, saiu um hat-trick: o combate e, por conseguinte, os padrões de ataque dos adversários são formulados para integrar esta alternativa única ao usual dodge. A riqueza de segredos do mundo é exponenciada sem prejuízo da sua naturalidade, uma vez que qualquer friesta de uma parede ou entalhe no terreno pode velar organicamente segredos e salas extra. E, claro, os segmentos de plataforma capitalizam notavelmente as potencialidades que este movimento introduz, seja nas construções de desafio per se ou nas gimmicks lapidadas em seu torno.
Jogando com os seus trunfos, a
Yacht Club Games fez destes engenhos a base da progressão em Mina the Hollower.
Sejam anfíbios que propagam ondas de chamas pelo chão ou placas de gelo que temos de escavar aos lanços, cada região de Mina the Hollower define-se pelo seu
punhado de mecânicas exclusivas, que é articulado num crescendo magistral de
criatividade e complexidade até alcançarmos o imponente boss da região.
Em nenhum momento desta marcha nos
deparamos com bloqueios inesperados. Para exaspero da série de deep-dives
Boss Keys, Mina the Hollower não acredita em fechaduras. Desbloqueamos várias
armas principais, mas estas proporcionam novas opções refrescantes de batalhar e
nada mais. Acumulamos upgrades (como aumentos das barras de vida e magia),
mas estes servem para facilitar a nossa jornada, não para a viabilizar. Equipamos
armas secundárias descartáveis que recolhemos pelo mapa e benefícios passivos
(à semelhança das Relics de Shovel Knight e Charms de Hollow Knight)
que são surpreendentemente libertadores; porém, se precisamos de uma ação
especial para ultrapassar um obstáculo, existe uma mão-cheia de métodos distintos
para alcançar o mesmo resultado.
Açambarcamos um rol de aquisições
úteis, mas estes utensílios de qualidade de vida parecem existir apenas para anular
sardonicamente os pontos negativos que anotara para esta análise: a
inexistência de apoios ao backtracking, a morosidade em recuperar armas secundárias
específicas, e o desincentivo à experimentação destas armas por nos sentirmos compelidos
a usar as que expandem a distância de salto são três defeitos que nos restringem inicialmente, mas caem por terra com os itens certos. Até existem chaves, daquelas de
metal e que abrem portas, mas, para além de serem totalmente opcionais, estas são universais a todas as fechaduras e facilmente mantemos uma reserva confortável
no bolso. Entre Mina e a próxima sala da campanha, só a nossa incapacidade
de transpor os seus desafios momentâneos nos consegue deter – e isso pode acontecer mais vezes do que julgam!
Mina the Hollower não possui
a brutalidade de um soulslike, mas é uma jornada exigente. Pede de nós a
mesma deliberação e tato com que os desenvolvedores a planificaram. Quem saltar
à toa pelos abismos de Tenebrous Isle ou atacar instintiva e selvaticamente os oponentes
não demorará a tratar o ecrã de game over por tu. Há que estudar os movimentos
da criatura ou das plataformas no nosso caminho, e planear ponderosamente
quando avançar, quando escavar, e quando recuar. Irritei-me recorrentemente ao sofrer
dano de contacto quando reorientava Mina para mirar os seus ataques,
restritos aos quatro sentidos cardinais; de resto, a experiência era irrepreensivelmente
justa. Por isso, lanço um repto: nas opções do jogo, existe uma pletora de modifiers
com o potencial de simplificar a progressão. Ao mesmo tempo que encorajo
vivamente o uso destas medidas de acessibilidade a quem necessitar
delas, rogo aos restantes jogadores que lhes fechem os olhos.
Se andarem às turras com um
obstáculo inabalável, experimentem diferentes armas e Trinkets, procurem upgrades
ou, em último recurso, virem costas e partam para outra região. Apesar da
sua estrutura aberta, Mina the Hollower sugere timidamente uma ordem de eventos
que não respeitei, o que claramente prejudicou a curva de desafio: levei uma
abada nas areias grosseiras, ásperas e irritantes de Sandy Beach e, após o sofrido
triunfo, fui descontar frustrações num bullying implacável aos
monstrengos de Nox’s Bayou. Está em causa algo além de arduidades arbitrárias: agindo
com método, a taxa de sucesso do jogador ascende em consonância com a sua gratificação
e proficiência com as habilidades de Mina.
Nesse sentido, a dificuldade
funciona como um dos tutores discretos do platformer. A história recusa-se
a dar-nos a mão, confiando no nosso discernimento para descobrir como avançar e
por onde avançar. O tutorial de Mina não decorre num ambiente controlado onde
cada ação é instruída em cartazes néon, mas sim no epicentro de uma cidade em
chamas onde a interface não ousa intrometer-se. Ou deduzimos que conseguimos escavar
sob certas grades e que os saltos iniciados no subsolo atravessam maiores
distâncias, ou o level design não nos deixa sair dali. Ninguém nos soletra
que podemos entrar em espelhos, mas percebemo-lo quando vemos distintamente uma
dama a mergulhar de cabeça num. Com artifícios graciosos como estes, a Yacht Club
Games norteia as nossas descobertas e troca as explicações artificiais por uma
abordagem mais empoderadora e imersiva. Mina the Hollower é alérgico a
tutoriais e, à exceção das frustrantemente crípticas águas profundas (nas quais
não podemos caminhar ou saltar, mas podemos escavar; de nada!), essas
linhas vermelhas revertem sempre em seu favor.
Como extensão desta postura hands-off,
o fio condutor entre os eventos da história é estabelecido com subtileza. O
mapa que compramos apenas exibe uma visão geral do continente, não existem indicadores de objetivo para nos guiar, e não recebemos nenhuma orientação após ser
estabelecida a nossa missão principal. Dependemos essencialmente das
sinaléticas dispersas pela ilha, dicas desinteressadas e tangenciais dos seus
residentes, e do nosso ímpeto descobridor. O título pratica uma indiferença cirúrgica
para connosco e, nesse distanciamento, alinha-se com universos digitais que me
fascinam ao entregar um mundo maior do que nós - convertendo a sua impassibilidade
em autenticidade.
Farejo nesta direção uns pozinhos do design da
FromSoftware, que passam de insinuação a teorema diante dos tons de gravidade e
morbidez de Tenebrous Isle. Somos confrontados com crucificações a céu aberto,
crianças apresentadas a São Pedro, e mais pedintes do que pedras na calçada. As
missões opcionais nem sempre se encerram com sorrisos de orelha a orelha e
entrecruzamentos de arco-íris. Tudo isto sem que o horror nos seja esfregado na
cara: as crianças podem nem sequer processar estes elementos, e nunca deixam de brotar laivos de humor aqui e ali. Ri-me com o humor afinado dalguns
NPCs, e ri-me perante os reconhecimentos inesperados de que Mina navega e
ultimamente altera um local habitado e reativo.
Consequentemente, mesmo que os NPCs fossem despojados das
recompensas que Mina cobiça, continuaria a resolver os seus problemas para presenciar as suas resoluções burlescas. Aliás, mesmo sem esse charme,
não ousaria pousar o comando, de tão magnetizante é a jogabilidade. E na
realidade, podiam insossar os seus desafios e talvez eu
continuasse em Tenebrous Isle só para ouvir a próxima música eletrizante de
Kaufman, ou para apreciar o próximo ecossistema pitoresco deste mundo caprichado.
Mas possuindo todas estas virtudes em simultâneo, Mina the
Hollower regalou-me com mais de 20 horas de jogo de puro deleite. Dediquei-me
de corpo e alma a dobrar cada pixel do mapa, com uma voracidade
insaciável por superar os meticulosos desafios, sorver todos os detalhes
irreverentes, experimentar todas as combinações de armas e Trinkets numa diversidade de estilos de jogo únicos. Imperturbado pelos obstáculos imprestáveis, tutoriais
intragáveis ou desorientações desmoralizantes de outros jogos, redobrava o meu
foco em Tenebrous Isle salto a salto, sala a sala, como que engrenado pelos
desenvolvedores num estado hipnótico do qual nunca emergiria da minha volição.
Entre os meus dedos, a ilha era um novelo de lãs, cujos caminhos infestados eu desenvencilhava compulsivamente e rearranjava num pano crescente de conexões - transformando
um continente inicialmente indomável num espaço íntimo e, incredulamente, transformando o usual fardo do backtracking num
prazer. Quando cozi o último fio e aportei nos créditos, sentia um misto de melancolia e negação: não estava pronto para me despedir. Felizmente, com vários New Game Plus pela frente e diversos
Modifiers de desafio e bizarria para experimentar, adiarei este fim: não me
vai faltar Mina para escavar pelos próximos tempos!
Conclusão
Mina the Hollower é a prova de que um relâmpago pode cair duas vezes no mesmo sítio. A nova obra-prima da Yacht Club Games consegue a proeza de, em simultâneo, preencher as botas pesadas de Shovel Knight, prestar um tributo sentido aos Zelda 2D, e firmar a sua identidade própria com uma aventura refulgente e confiante. Confiante na sua jogabilidade e mapa exímios, confiante no rapport reverente com o jogador, e confiante de que ninguém conseguirá despedir-se de Tenebrous Isle sem desenterrar todos os seus segredos.
O melhor
- Jogabilidade de plataformas prazerosa e viciante;
- Mecânica de escavar habilmente integrada nos desafios e construção de mundo;
- Um mapa repleto de segredos para descobrir e conexões para estabelecer;
- Imensos itens para personalização da jogabilidade;
- Worldbuilding soturno e subversivo;
- Componente audiovisual refinada e nostálgica.
O pior
- Frustrações derivadas do dano de contacto;
- Enredo básico e previsível.
Nota do GameForces: 9.5/10
Nota: Esta análise foi realizada com base na versão digital do jogo para a Steam, através de um código gentilmente cedido pela editora.
Autor da Análise: Tiago Sá








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