[Análise] The Legend of Zelda: Link's Awakening [NSW]


Um "The Legend of Zelda" sem Zelda, sem Hyrule, sem Triforce… Seria difícil de imaginar, se já não tivesse acontecido. Numa franquia com uma fórmula muito estrita, foi uma surpresa o nascimento de The Legend of Zelda: Link’s Awakening, que abandona o icónico reino de Hyrule em favor da Ilha Koholint, na qual o Link deu à costa após um naufrágio. Agora, o objetivo do herói não é derrotar o Ganon(dorf) ou outra grande ameaça maléfica. O que ele quer é simplesmente sair da ilha, mas a única maneira de o fazer é acordando o Wind Fish, que está a dormir num ovo gigante. Sem demoras, o intrépido Link coloca as mãos à obra para encontrar os oito instrumentos capazes de acordar esta criatura mítica.

É assim que nos primeiros minutos de jogo percebemos que estamos diante de algo muito diferente dos Zelda que jogamos antes. Este é um título que abandona vários pilares da série e introduz muitos novos elementos, alguns dos quais se tornariam recorrentes em futuros jogos e outros que nunca mais viriam a aparecer na franquia. As liberdades tomadas com este título fizeram dele um dos mais estimados pelos fãs, mas infelizmente as limitações da GameBoy tornam Link's Awakening difícil de revisitar. Por isso, é com braços abertos que acolhemos um remake deste clássico para a Switch.


Este salto para a híbrida da Nintendo faz-se sentir desde logo na encantadora apresentação visual e sonora. Com esta conversão, a Ilha Koholint abandona a sua segmentação em ecrãs individuais e os gráficos pixelizados para dar lugar a um mapa contínuo com cores vibrantes e um adorável estilo de arte que faz o mundo parecer um diorama. Cada detalhe deste pequeno mundo é de encher os olhos: as personagens em porcelana, os ambientes em plasticina, os efeitos da água e areia… Tudo isto acompanhado por uma sublime banda sonora, com uma orquestra de câmara a fazer jus às icónicas melodias do original para a GameBoy. Infelizmente, isto tem um preço. A framerate tem como alvo 60 fotogramas por segundo, mas são frequentes as quedas, especialmente quando se sai de uma casa ou masmorra ou se visita uma área com muito a acontecer ao mesmo tempo. Pelo menos, apesar de serem um pouco incómodas, estas flutuações raramente afectam a jogabilidade.

Jogabilidade esta que também recebeu os seus devidos ajustes. Como a GameBoy apenas tinha dois botões de acção, era necessário trocar entre os vários utensílios de Link a todo o momento. Felizmente, na Nintendo Switch, a espada, escudo e Pegasus Boots estão agora associadas a botões dedicados, algo que por si só já seria suficiente para tornar esta versão a definitiva! Se bem que dei por mim a desejar poder ter a Roc’s Feather (que permite saltar) equipada a todo o momento… No entanto, Link mantém-se restrito a 8 direcções de movimento, o que desilude um pouco quando A Link Between Worlds, o último Zelda 2D tradicional até à data, permitia controlo em 360º.

Por seu lado, os desafios em si mantêm-se praticamente preservados, até porque continuam divertidos mesmo depois de mais de 25 anos. Explorar a pequena mas rica ilha de Koholint continua a ser extremamente entusiasmante, e foi facilitado pela adição de um mapa melhorado, que permite ver em detalhe as regiões da ilha já visitadas, assinalar pontos de interesse e reler diálogos chave com personagens. Os mais aventureiros terão inúmeros segredos espalhados pelo mapa para encontrar, e certamente nunca faltará vontade de conhecer cada residente de Koholint e ouvir o que eles têm a dizer (até porque muitos deles são referências a outros jogos Nintendo!). Com os deslumbrantes visuais, as alusões ao universo Nintendo um pouco por todo o mapa e habitantes que vivem tranquilamente sem preocupações de cataclismo, Koholint é um lugar mágico que é um prazer descobrir.


Dispersas pela ilha, estão as várias masmorras do jogo, nas quais estão guardados os instrumentos que queremos recolher. Estes são os locais dos jogos Zelda onde as nossas habilidades de puzzle e combate são mais colocadas à prova, e no caso de Link’s Awakening é onde encontramos a maioria do nosso equipamento. Se há um sítio onde o jogo acusa a sua idade, é provavelmente aqui. Enquanto os jogos Zelda seguintes nos veriam a resolver puzzles que envolvem amplas regiões das masmorras e mesmo a manipulá-la por inteiro, aqui temos desafios bem mais simples. As tarefas que fazemos continuam a ser interessantes, mas são pouco memoráveis e contrastam fortemente com o charme do resto da experiência. Isto poderia ser agravado pela baixa dificuldade dos combates, mas felizmente aqueles que o desejarem podem começar a aventura em Hero Mode, o que faz com que os ataques inimigos causem mais dano e que os corações para recuperar vida vão de vela.


Outro aspecto no qual Link’s Awakening indicia a sua origem na GameBoy é a duração. Quem apenas se preocupar com chegar ao fim da aventura poderá mesmo fazê-lo em menos de um dia, e as novas adições ao jogo pouco fazem para resolver este problema. Estes incrementos incluem uma renovação dos minijogos de pesca e máquina de garra: as mecânicas destes são agora mais sofisticadas e há uma maior quantidade de peixes para pescar e figuras para coleccionar, respectivamente. Também o minijogo Rapids Ride (no qual o Link desce por um rio numa jangada recolhendo itens) se tornou mais interactivo, ao possibilitar o uso do Grappling Hook para influenciar a trajectória. Estes minijogos ganham assim alguma substância, mas continuam a ser apenas pequenas distracções.


A grande novidade deste remake é Chamber’s Dungeon, um modo completamente novo que substitui a Camera Shop da versão para GameBoy Color. A ideia deste modo é ser uma espécie de “Zelda Maker”, em que pegamos em salas que exploramos previamente e as organizamos para criar a nossa própria masmorra. Dampé, um coveiro icónico da franquia, guia-nos pelo processo, desafiando-nos a criar masmorras seguindo certas regras e a vencê-las, e recompensando-nos pelo nosso esforço.


E esforço é a palavra-chave aqui. Chamber’s Dungeon pode soar bem no papel, mas a execução foi péssima. A obrigação de usar salas pré-concebidas significa que estamos muito limitados naquilo que podemos fazer e que vamos estar sempre a repetir as mesmas salas. Não é divertido resolver de novo um enigma para o qual já sabemos a resposta, não é divertido combater repetidamente os mesmos bosses, nas mesmas condições. Não demorou muito até eu deixar de tentar criar algo interessante e passar a tentar criar masmorras que eu pudesse vencer o mais rápido possível. Este modo é uma demonstração deprimente de potencial desperdiçado, que para nada serve senão para aumentar artificialmente o conteúdo disponível. É triste que a maior novidade deste remake seja também o seu ponto mais fraco.


Conclusão:
The Legend of Zelda: Link’s Awakening já era excelente e extravagante na GameBoy, pelo que bastava uma pincelada competente para tornar este remake um produto de qualidade. Felizmente, a conversão demonstrou genuíno apreço por tudo o que torna esta experiência especial, mantendo o encanto de Koholint e dando os toques de modernidade necessários. É até poético que um dos títulos menos convencionais da série se veja agora lado a lado com Breath of Wild, outro jogo que abanou as bases da franquia.

Mas é estranho que estes dois jogos estejam lado a lado também no preço, considerando que, em longevidade, Link’s Awakening continua a ser essencialmente um título de GameBoy. Chamber´s Dungeon é a única verdadeira adição e, sinceramente, é melhor passar bem longe desta componente.

O melhor:
- Fascinante mundo para explorar;
- Óptima renovação audiovisual;
- Ajustes à experiência.


O pior:
- Problemas de performance;
- Masmorras algo datadas;
- Chamber’s Dungeon é abominável;
- Curta duração.

Pontuação do GameForces: 8.0


Título: The Legend of Zelda: Link's Awakening
Desenvolvedora: Grezzo
Publicadora: Nintendo
Ano: 2019

Autor da Análise: Tiago Sá

[Análise] The Legend of Zelda: Link's Awakening [NSW] [Análise] The Legend of Zelda: Link's Awakening [NSW] Reviewed by Tiago Sá on março 26, 2020 Rating: 5

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