GameForces Awards 2025 - Melhor Jogo do Ano


Não foi um ano fácil para ninguém nesta indústria. Os grandes obstáculos enfrentados pela indústria e pelos seus protagonistas ao longo dos últimos anos, longe de serem superados, viram-se amplificados com novos atores em jogo. Mais uma vez, vimos despedimentos de trabalhadores na casa dos milhares. Vimos mais de uma mão cheia de estúdios a serem encerrados sem cerimónia. Vimos reestruturações que resultaram em equipas a serem reduzidas a mínimos essenciais ou em projetos a serem cancelados, alguns dos quais sem terem a oportunidade de ganhar qualquer balanço. E, agora, vemos a ameaça da inteligência artificial a pairar sobre o processo de desenvolvimento e consumo de videojogos, não só comprometendo o ganha-pão das mentes que erigem os videojogos que amamos, mas também insinuando-se sobre a sua integridade e valor artísticos. O custo humano de fazer jogos, ou de viver em torno de jogos foi, em 2025, tragicamente elevado.

Mas por isso é que queremos continuar a celebrar os videojogos que nos chegam e que jogamos. Porque todos os que trabalham nesta indústria merecem ser louvados. Todos os que se sacrificam pelo nosso entretenimento merecem ver o seu trabalho ser reconhecido. Não é um pequeno artigo ou uma pequena rubrica como a nossa que mudará seja o que for. Mas é o que podemos fazer para agradecer. 

Sejam um diretor de arte, um animador acabado de entrar na indústria, um testador de qualidade, um designer de sistemas, um programador de um motor de jogo, ou um baixista no meio de uma orquestra contratada para a banda sonora: obrigado, do fundo do coração, por tornarem a nossa vida melhor e mais divertida.

Agora, e sem mais demoras, vamos ao grandalhão. Vamos ao prémio de Melhor Jogo do Ano de 2025!




Filipe Martins - Clair Obscur: Expedition 33

Se leram as outras categorias dos GameForces Awards, já conseguem prever o que vai sair daqui. Se houve um jogo este ano que me fez esquecer do tempo, que me agarrou de tal forma que cada minuto simplesmente voava, esse jogo foi Clair Obscur: Expedition 33. Não é apenas um RPG ou uma aventura com combate bem executado — é uma experiência que nos envolve de forma arrebatadora, que nos faz sentir cada emoção que o jogo quer transmitir, a tensão de cada exploração e a beleza de um mundo meticulosamente construído.

A narrativa é intensa, envolvente e emocionalmente poderosa. Desde o primeiro momento, senti que estava a viver algo que há anos não sentia nos videojogos: uma história que nos agarra pelos sentimentos, que nos faz questionar, torcer e até sofrer — e muito — com os personagens. Cada revelação, cada detalhe do mundo — das paisagens aos pequenos gestos e interações das personagens — foi pensado para nos puxar para dentro da experiência, criando uma ligação rara entre jogador e história.

A banda sonora completa a magia, conduzindo-nos suavemente entre momentos de silêncio contemplativo e sequências de tensão máxima, enquanto o design artístico cria uma atmosfera única, que nos fica na memória muito depois de desligar a consola. A fluidez da exploração e a forma como cada elemento do mundo se sente vivo tornam a experiência ainda mais imersiva, quase como se estivéssemos dentro de um filme interativo.

Escolhi Clair Obscur: Expedition 33 como GOTY não apenas pela qualidade técnica, mas pelo impacto emocional que teve em mim. É daqueles jogos que nos lembram por que amamos videojogos: pela capacidade de nos transportar, surpreender e emocionar. É pura magia digital, uma experiência que vou guardar comigo por muito tempo — até porque já há muito tempo que um jogo não conseguia provocar algo assim em mim.




Filipe Mesquita - Hollow Knight: Silksong

E como o prometido é devido, cá venho eu falar-vos, uma vez mais, da experiência esplendorosa que é Hollow Knight: Silksong. No total, demorei mais de 60 horas a explorar todo o mapa, a derrotar cada um dos exigentes e desafiantes bosses e a desvendar toda a história, todas as narrativas nela contidas e a absorver cada cenário e cada peça musical composta. Foi muito mais tempo do que estava à espera, mas raios me partam se não foram algumas das melhores 60 e tal horas que já passei com um comando na mão.

A jogabilidade é absolutamente fenomenal, levando-me a querer experimentar a panóplia de opções de técnicas e equipamentos dos quais podia munir Hornet. A direção artística é belíssima, com alguns cenários verdadeiramente opressores a contrastar com secções inundadas de beleza e graciosidade. A banda sonora enaltece cada momento desta experiência, havendo umas quantas trilhas que ainda não me saem da cabeça - e provavelmente nunca sairão. E o leque de personagens, de dificuldades que atravessam, de obstáculos que superam ou perante os quais sucumbem - está tudo elaborado com um amor invulgar que me contagiou do primeiro ao último minuto.

Enfim, Silksong poderia muito bem ser daquelas experiências que se deixaria cair e arruinar pela pressão e pela expectativa que tinha aos seus ombros. Mas não só isso não aconteceu, como escalou a inclinadíssima montanha de hype que tinha pela frente e conseguiu surpreender-me pela positiva em mais coisas do que aquelas que consigo nomear aqui. É daquelas experiências que adorava poder apagar da minha memória para poder viver, novamente, pela primeira vez. Independentemente do que joguei, ou deixei de jogar em 2025, Hollow Knight: Silksong é um jogo especial que me acompanhará enquanto eu tiver memória. E por isso, é mais do que merecedor do meu louvor pessoal de Jogo do Ano.



Carlos Cabrita - Death Stranding 2: On the Beach

Por fim, chegamos ao prémio mais importante: o Jogo do Ano. A decisão foi tudo menos fácil, até porque 2025 foi um ano recheado de experiências de enorme qualidade. Tivemos Dispatch, um jogo que me fez sentir parte ativa da narrativa; Clair Obscur: Expedition 33, uma obra impressionante pela sua construção global — da banda sonora aos visuais, passando pela história e até Ghost of Yōtei, que, mesmo sem o ter jogado, desperta enorme confiança pelo legado do primeiro título.

Ainda assim, no meio de tantas escolhas fortes, houve um jogo que se destacou claramente acima de todos os outros: Death Stranding 2: On the Beach.

Confesso que o primeiro Death Stranding nunca me conquistou totalmente. Houve momentos em que a experiência se tornou arrastada e até aborrecida. Precisamente por isso, o que Hideo Kojima conseguiu com esta sequela torna-se ainda mais impressionante. Death Stranding 2 pega em tudo o que estava mal no original e elimina-o, ao mesmo tempo que refina e eleva tudo o que já funcionava.

Visualmente, o jogo é deslumbrante, com cenários que facilmente poderiam ser confundidos com planos retirados de um filme. As personagens são incrivelmente bem representadas, a banda sonora é utilizada de forma exemplar e a narrativa mantém-se sempre coesa, intensa e envolvente. Não há pontas soltas, personagens mal desenvolvidas ou momentos desnecessários. Cada elemento serve um propósito claro dentro da experiência.

E o final… o final é daqueles que ficam. Um verdadeiro murro emocional que nos obriga a repensar tudo o que vivemos até ali. O impacto do último plot twist é tão forte que qualquer palavra a mais seria estragar a experiência, por isso, não digo mais. Joguem!

Se gostaram do primeiro jogo, ou mesmo que apenas não o tenham achado mau, Death Stranding 2: On the Beach é obrigatório. É uma evolução clara, segura e ambiciosa. Pela sua melhoria face ao original, pela sua visão artística e pelo impacto que deixa, é, sem margem para dúvidas, o meu Jogo do Ano de 2025.




Tiago Sá - Clair Obscur: Expedition 33

Posso entregar o meu galardão de Jogo do Ano a Clair Obscur: Expedition 33, mas não é de mão beijada que lhe entrego a minha alma e coração. Embora me junte relutantemente ao coro que entoa o seu louvor, não pretendo dissolver-me na incondicional onda de elogios que alimenta os seus refrões. Porque eu reconheço que Expedition 33 não trouxe nada de novo à indústria em qualquer uma das suas componentes, e sou capaz de traçar as suas inspirações claras e diretas, seja Paper Mario ou Xenoblade, Persona ou Final Fantasy. Porque, para além de não ser pioneiro na indústria, não soube espelhar certas boas práticas de game design atuais, tanto nas suas físicas de platforming toscas como na sua praga de paredes invisíveis. E porque eu estou ciente de que muitos dos seus acérrimos devotos nunca teriam olhado na sua direção, se a Sandfall Interactive tivesse optado por uma apresentação mais estilizada no lugar da sua direção de arte realista.

Tendo dito isso… O que Expedition 33 faz bem, faz excepcionalmente. A natureza velada do mundo de Lumiére é extremamente irónica, tendo em conta o quanto esta região é pautada pela verossimilhança e fascínio. O pano de fundo narrativo é conceptualmente intrigante e fomenta uma história pungente e impactante, as personagens carregam o melindre, maturidade e força da sua escrita em cada gesto esboçado, em cada palavra proferem ou que impedem que se solte. Em torno deste núcleo emocional, encontramos uma apresentação requintada que se alicerça nas correntes artísticas da Belle Époque e que coloca ênfase na ténica chiaroscuro, em associação a uma banda sonora magistral e imensa que ostenta orgulhosamente as suas origens francesas, que pontua perfeitamente os acontecimentos mais solenes e as conjunturas mais burlescas e que nos toca na alma.

Um jogo menor utilizaria estes valiosos trunfos para compensar uma jogabilidade inferior. Expedition 33 não é um jogo menor. A implementação de action commands dota os combates de um grau mais profundo de envolvência, sem nunca obnubilar ou ser obnubilada pelos comandos ou sistema de Luminas que ditam a riqueza estratégica dos confrontos por turnos. E, fora dos trilhos da história principal, a equipa liderada por Guillaume Broche galanteia-nos com incontáveis explorações inspiradas do seu worldbuilding, exploração e combate, e com uma panóplia de easter eggs, segredos que se refugiam nos mais inconspícuos recantos do mundo e nas cinemáticas, nos quais transparece a exaustividade com que cada byte da experiência foi pensado e o amor que a Sandfall Interactive nutre pelas suas inspirações, pelo seu país, e pelo seu projeto primogénito.

Quando joguei Clair Obscur, eu quis observá-lo, quis escutá-lo, quis explorá-lo, quis jogá-lo, quis vivê-lo. A jogabilidade compenetra-te, a história penetra-te, a sonoplastia interpenetra-te. Seja o que for que procuras em jogos singleplayer, Clair Obscur não só entrega, como entrega com excelência e esplendor.



Carlos Silva - Clair Obscur: Expedition 33

Clair Obscur tornou-se o melhor jogo deste ano porque oferece uma experiência completa, daquelas em que todos os elementos parecem encaixar com uma perfeita precisão entre si. O world setting é imediatamente cativante, revelando um mundo dividido entre luz e sombra, apresentado com um detalhe visual e emocional que prende desde os primeiros minutos. Não é apenas bonito, revela uma história escondida, cheio de pequenas pistas sobre o enredo do jogo e com uma estrutura que procura levar o jogador a querer saber mais. Desta forma, explorar este universo é descobrir constantemente novos fragmentos de identidade do jogo em si, o que torna cada zona mais memorável do que a anterior.

O enredo, por sua vez, é construído com uma estrutura firme e segura. Nada acontece por acaso, e cada revelação parece surgir no momento certo, equilibrando mistério com clareza. Para isso, lá está, funcionando como uma orquestra bem afinada, temos um conjunto de personagens bem aprofundadas, cheias de nuances e com motivações que fazem sentido dentro deste mundo tão único. Cada diálogo acrescenta algo, seja profundidade emocional, um toque de humor subtil ou pistas importantes sobre o rumo da narrativa. Mesmo horas depois de jogar, continuamos a pensar nelas, o que diz muito sobre o impacto que deixam.

E  claro, falando de orquestra, a banda sonora reforça tudo isto de forma brilhante. É uma das melhores dos últimos anos, não só pela qualidade das composições, mas pela forma como se envolve diretamente com a experiência. A música parece respirar com o mundo, reforçando momentos de tensão, dando calor aos instantes mais tranquilos e elevando as cenas marcantes sem nunca se impor demasiado. É daquelas bandas sonoras que ficam na memória mesmo fora do jogo e faixas como “Une vie à t'aimer” elevam a fasquia para todos os jogos existentes até à data.

Por fim, não posso deixar de dar um palavra sobre o gênero do jogo. Quem me conhece sabe que sou fã acerrimo de um bom RPG por turnos e Clair Obscure domina-o com uma confiança rara. As mecânicas são claras e cheias de possibilidades, dando ao jogador liberdade na caracterização da personagem e da forma como aborda o combate. O sistema de progressão é intuitivo sem ser simplista, permitindo que cada estilo de jogo encontre o seu espaço nesta experiência. As secções de exploração e resolução de pequenos desafios encaixam naturalmente no ritmo geral, sem quebra de imersão. Tudo funciona com uma lógica interna bem afinada, o que faz com que cada momento jogado seja recompensador.

No conjunto, Clair Obscur é mais do que um grande jogo: é uma obra cuidadosamente construída, onde narrativa, mundo, personagens, música e jogabilidade trabalham em perfeita harmonia. Um título que perdurará na memória de quem o experimentar onde a  sua música e personagens ficarão, certamente, para sempre na nossa memória.


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Digam-nos de vossa justiça! Concordam com as escolhas dos nossos redatores? Há algum grande jogo este ano que, na vossa opinião, mereça destaque e que não tenhamos referido ao longo deste artigo? Partilhem connosco as vossas opiniões, e enriqueçam esta discussão! E um ótimo ano novo a todas e a todos que nos lêem!

Introdução por Filipe Castro Mesquita (adaptada por Tiago Sá)
Edição do Texto por Tiago Sá
Thumbnail e Imagens de Texto por Carlos Cabrita
GameForces Awards 2025 - Melhor Jogo do Ano GameForces Awards 2025 - Melhor Jogo do Ano Reviewed by Tiago Sá on janeiro 01, 2026 Rating: 5

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