Antes de qualquer pessoa avançar com esta leitura, tenho que fazer a ressalva de que a minha experiência de dezenas ou centenas de horas em jogos de luta foi no Tekken… 3. Como podem calcular, já se passaram uns largos anos — ou, vá, uns longínquos anos — desde essa altura, mas decidi arriscar em MARVEL Tōkon: Fighting Souls para fazer a minha tentativa de voltar triunfante. Descobri rapidamente que a tarefa não iria ser nada fácil.
A Arc System Works, especialista no género e responsável por séries de sucesso como Guilty Gear, BlazBlue e Dragon Ball FighterZ, pega agora no universo da Marvel para criar MARVEL Tōkon: Fighting Souls, um título que apresenta uma estrutura supostamente 4v4, um visual inspirado em anime e 20 personagens no lançamento. E apesar de, à primeira vista, parecer um fighting game acessível a qualquer jogador, bastam algumas horas com ele para perceber que a conversa é bastante diferente.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi precisamente o combate. Tōkon é extremamente fluido e, durante as minhas partidas, senti que os atrasos entre aquilo que fazia no comando e aquilo que acontecia no ecrã eram praticamente inexistentes. Num género onde uma fração de segundo pode fazer a diferença entre acertar um golpe ou levar com um ataque adversário, esta capacidade de resposta é fundamental. A Arc System Works conseguiu criar um sistema que permite começar a jogar sem grandes complicações: carregando várias vezes numa só tecla conseguimos desferir combos básicos. No entanto, rapidamente percebemos que não é assim que iremos ganhar combates, existindo uma profundidade bastante maior para quem estiver disposto a aprender.
É principalmente quando abandonamos as batalhas contra a inteligência artificial e entramos no online que percebemos a verdadeira dimensão do combate. Basta encontrar alguém que saiba realmente o que está a fazer para percebermos que este não é propriamente um jogo para amadores dos fighting games. Aquilo que contra a inteligência artificial parecia simples, mesmo numa dificuldade mais elevada, contra outro jogador rapidamente se transforma num teste onde cada erro pode ser aproveitado pelo adversário.
Aprender a jogar Tōkon não significa, por isso, apenas saber executar os ataques disponíveis. É preciso perceber quando atacar, quando defender, como utilizar os restantes membros da equipa e, sobretudo, conhecer os diferentes combos. E é precisamente aqui que a estrutura 4v4 começa a fazer sentido, embora o nome possa ser um pouco enganador. Na realidade, não estamos perante quatro personagens a lutar simultaneamente, mas sim perante um combate essencialmente 1v1 onde os restantes elementos funcionam como apoio em determinados momentos.
No início do combate nem sequer temos todos os membros da equipa disponíveis, sendo necessário desbloqueá-los através de determinadas situações, como perder um round ou realizar ataques específicos que fazem o adversário atravessar diferentes fases do cenário. Senti, no entanto, que esta mecânica poderia oferecer um pouco mais de liberdade, com diferentes formas de desbloquear os restantes membros da equipa ou cada personagem ter o seu método, um combo especifico por exemplo.
Depois de desbloqueados, podemos utilizá-los para ajudar durante os combos e criar oportunidades de ataque ou podemos simplesmente assumir o controlo de outro lutador. Existe, contudo, uma particularidade importante: toda a equipa partilha a mesma barra de vida, o que faz com que estas trocas tenham de ser pensadas e não possam ser utilizadas simplesmente para recuperar a saúde. É um sistema que inicialmente parece mais complicado do que realmente é, mas que acaba por funcionar bastante bem quando começamos a perceber todas as possibilidades.
E é também por causa desta estrutura que o elenco acaba por saber a pouco. Não me interpretem mal, as 20 personagens presentes no lançamento oferecem uma variedade interessante dentro do universo Marvel, com nomes como Spider-Man, Wolverine, Storm, Iron Man, Hulk, Doctor Doom, Magneto, Deadpool ou Loki, juntamente com algumas escolhas menos óbvias. Ainda assim, estamos a falar da Marvel. Quando cada combate pode contar com 8 lutadores diferentes, é difícil não olhar para as 20 personagens e pensar em todas os outras que poderiam estar aqui, dentro de leque de centenas do universo de Stan Lee.
Felizmente, parece existir intenção de continuar a alimentar o jogo com novo conteúdo, algo que será particularmente importante para a longevidade de um título tão focado na vertente competitiva. E é precisamente aqui que acredito que Tōkon pode encontrar o seu público. Para quem gosta do género, existe muito espaço para dominar lutadores, aperfeiçoar combos, experimentar diferentes equipas e tentar chegar aos lugares mais elevados dos rankings. Se a Arc System Works mantiver um bom ritmo de atualizações e novas personagens, existe potencial para manter uma comunidade ativa durante bastante tempo.
Fora dos combates competitivos, encontramos também alguns modos destinados a quem prefere jogar sozinho. O modo história apresenta os acontecimentos através de uma espécie de banda desenhada, uma escolha que combina bastante bem com o universo Marvel e que ajuda a dar personalidade à apresentação. O problema é que a fórmula rapidamente começa a tornar-se repetitiva. Depois de chegarmos ao segundo grupo de personagens, a sensação de novidade praticamente desaparece e começamos a sentir que estamos a repetir a mesma estrutura com outras caras. Não é um modo mal conseguido, mas também não é aqui que Tōkon consegue justificar dezenas de horas de jogo. É sobretudo uma oportunidade para experimentarmos todos os lutadores num ambiente controlado, impelidos por um fio narrativo e apoiados pelos apontamentos básicos sobre os seus ataques específicos que o jogo vai fazendo.
A verdadeira aposta está claramente no online, onde encontramos partidas Ranked, Casual e Room Match, além dos Open Lobbies. Estes últimos funcionam quase como um ponto de encontro para a comunidade, permitindo-nos circular com um pequeno avatar, encontrar outros jogadores e desafiar adversários através das máquinas de arcade espalhadas pelo espaço. Com capacidade para dezenas de jogadores no mesmo lobby, existe aqui uma componente social interessante que complementa bem a vertente competitiva e reforça a ideia de que este é um jogo pensado para continuar a ser jogado depois de terminarmos os conteúdos iniciais.
Tudo isto é acompanhado por um trabalho visual que, para mim, é um dos grandes destaques de MARVEL Tōkon: Fighting Souls. A Arc System Works sabe muito bem trabalhar com este tipo de estética e conseguiu transportar as personagens Marvel para um estilo anime sem lhes retirar a identidade. Os combates são extremamente dinâmicos, os ataques têm uma apresentação espetacular e as transições entre diferentes partes dos cenários ajudam a dar ainda mais espetáculo às partidas. Mesmo quando chamamos todos os membros da nossa equipa ao mesmo tempo para um combo, tudo fica muito bem interligado em termos visuais.
A banda sonora, por outro lado, cumpre a sua função sem chegar a ser memorável. Mas também é preciso admitir que estamos tão concentrados em perceber se devemos atacar, defender ou preparar o próximo combo que nem existe propriamente muito espaço mental para apreciar a música. Onde o jogo consegue destacar-se mais é na sonoplastia. Os golpes têm impacto, cada personagem tem sons próprios que complementam o seu estilo de combate e os ambientes contribuem para tornar os confrontos mais vivos.
No final, MARVEL Tōkon: Fighting Souls é um jogo que pode facilmente enganar quem olha apenas para a sua apresentação. Tudo parece simples, rápido e acessível, mas basta começar a enfrentar jogadores com alguma experiência para percebermos que existe muito mais por baixo da superfície. Este não é um jogo para quem procura entrar ocasionalmente numa partida, carregar alguns botões e esperar ganhar. É necessário dedicação, paciência e, sobretudo, capacidade para lidar com a frustração.
Porque Tōkon consegue ser extremamente cruel quando cometemos um erro. Podemos estar a controlar perfeitamente um combate e, num instante, não bloquear corretamente um ataque e perder mais de metade da nossa vida perante um combo que parece nunca mais acabar. É precisamente aqui que o jogo separa quem quer apenas divertir-se ocasionalmente de quem está disposto a investir tempo para dominar verdadeiramente as suas mecânicas. E apesar de algumas derrotas serem capazes de nos fazer desligar a consola, existe aquela vontade de voltar a tentar e perceber onde errámos.
MARVEL Tōkon: Fighting Souls não reinventa o género, mas também não precisava de o fazer. A Arc System Works pegou na experiência que tem em jogos de luta, juntou-lhe um dos universos mais conhecidos do mundo e criou um sistema de combate extremamente fluido, divertido e com potencial competitivo. O elenco podia ser maior, o modo história torna-se repetitivo demasiado cedo e a banda sonora dificilmente ficará na memória, mas estes problemas acabam por ter menos peso quando percebemos aquilo que Tōkon realmente quer ser.

E, curiosamente, é precisamente por conhecer tão bem a história dos fighting games que a Arc System Works se dá ao luxo de espalhar alguns pequenos easter eggs pelos combates. Existem movimentos de determinadas personagens que fazem referência a golpes ou animações de outros jogos de luta, e uma dessas referências vai diretamente ao meu longínquo companheiro de batalhas: Yoshimitsu, de Tekken 3. É um pormenor que provavelmente passará despercebido à maioria dos jogadores, mas que não podia deixar de me arrancar um sorriso depois de ter começado esta análise precisamente a falar daquele que foi, há muitos e muitos anos, o meu último grande contacto com o género.
Conclusão
No final, Tōkon é um jogo para quem está disposto a investir tempo, perder, voltar ao treino e tentar novamente. E se a Arc System Works cumprir a promessa de continuar a acrescentar personagens e conteúdo, acredito que MARVEL Tōkon: Fighting Souls tenha todas as condições para se manter durante bastante tempo no espírito competitivo dos jogadores.
O melhor
- Combate extremamente fluido e responsivo.
- Grafismo e animações bem delineados.
- Sistema de combate acessível, mas profundo.
O pior
- Leque inicial de personagens curto.
- Pouco conteúdo para quem procura uma experiência single-player.
Nota do GameForces: 8/10
Título: MARVEL Tōkon: Fighting Souls
Desenvolvedora: Arc System Works
Editora: Sony Interactive Entertainment
Ano: 2026
Autor da Análise: Filipe Martins
Nota: Esta análise foi realizada com base na versão digital para a PlayStation 5, através de um código gentilmente cedido pela editora.
Análise | MARVEL Tōkon: Fighting Souls – De volta aos fighting games… e que tareia!
Reviewed by Filipe Martins
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agosto 20, 2026
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agosto 20, 2026
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