Análise | STEINS;GATE RE:BOOT - Reinicia o Jogo e Toca o Mesmo

 

Se eu comandasse a MAGES, não conseguiria olhar para a popularidade de STEINS;GATE sem sentir uma pontinha de frustração. Por mais que o anime seja uma produção amplamente reconhecida e aclamada do entretenimento japonês (tendo mantido a posição de prata no ranking geral de My Anime List durante mais de uma década), o seu sucesso não se traduziu numa atenção redobrada para o restante cardápio do estúdio: uma boa porção dos fãs nem suspeita que a história foi adaptada de um videojogo, ou que esta é apenas o segundo episódio dentro da inigualada saga Science Adventure (SciADV) – uma série de visual novels autossuficientes, mas que partilham um universo, regras e antagonistas comuns.

Aliás, para este autor, STEINS;GATE nem sequer é a melhor narrativa SciADV (cabe a CHAOS;CHILD essa honra); porém, as razões para a sua hegemonia são extremamente evidentes. Nesta história, acompanhamos Okabe Rintaro, um autoproclamado cientista insano que se lança constantemente em confabulações tão histriónicas quanto delirantes sobre o seu papel como agente de caos e inimigo perseguido da “Organização”, sem respeito pelos seus intervenientes, pelo decoro social, ou por qualquer noção de vergonha alheia. Quando, num acesso de serendipidade, Rintaro descobre que o seu microondas modificado é capaz de enviar objetos para o passado, o melodramático estudante universitário de Akihabara tenta descobrir os princípios do seu funcionamento e uma forma de dominar esta tecnologia, contando com os seus amigos e com a inesperada ajuda da adolescente prodígio Makise Kurisu – sem qualquer noção das forças que está a desafiar, ou das consequências da sua imiscuição no contínuo espaço-tempo…

Os primeiros capítulos da história prendem-nos a cada caixa de texto com uma sucessão de fascinantes explicações de conceitos científicos e filosóficos, como teorias de física quântica ou os princípios de formação de memórias, e um metódico empilhamento dos seus enigmas centrais. Porém, enquanto nos engodam com as suas explorações sci-fi, os argumentistas afeiçoam-nos de mansinho ao seu elenco de personalidades – tudo isto para que o segundo ato possa afundar e arquear uma afiada adaga no nosso âmago com uma cascata de decisões emocionalmente implacáveis, colocando à prova a fachada infantil e a resiliência de Okabe e estocando repetidamente o coração do jogador com desenvolvimentos emotivos e provocações filosóficas sobre o tempo e o livre-arbítrio. A primeira metade espicaça a nossa curiosidade; a segunda conquista o nosso apreço e louvor. STEINS;GATE ostenta eximiamente o logos e o pathos e, até ao rolar dos créditos, presenteia-nos com uma das mais arrebatadoras e inolvidáveis montanhas-russas do universo dos videojogos.

Em comparação com títulos como CHAOS;HEAD e CHAOS;CHILD, STEINS;GATE possui um conceito central de viagens no tempo mais familiar e digerível, um protagonista que consegue ser excêntrico sem se tornar insuportável ou repulsivo, um repertório de personagens secundárias mais sóbrio (tanto quanto podem ser numa obra nipónica) e uma estrutura de rotas narrativas (com diferentes finais) menos retorcida. Consequentemente, esta não é a entrada mais audaz da MAGES, mas afirma-se como a mais acessível, sem sacrificar os seus cunhos de auteur tanto no domínio da razão como da emoção.

É precisamente esta acessibilidade e consequente popularidade que fazem de STEINS;GATE a galinha dos ovos de ouro da MAGES, quando o estúdio pretende convocar a luz dos holofotes ou uma injeção de capital (infelizmente, bem precisam de uma). Desde o seu lançamento original em 2009, esta história já recebeu dois remakes: STEINS;GATE ELITE, em 2018, e o recém-lançado STEINS;GATE RE:BOOT, que promete novos conteúdos e uma profunda renovação audiovisual ao mesmo tempo que suscita esta análise, apesar de ter demorado 566 palavras a ser aqui introduzido (que boa retórica, Tiago!).

Haverá justificação para uma visual novel, lançada originalmente na Xbox 360 com visuais HD e interface moderna, estar a ser recriada pela segunda vez? Contrariando a minha resposta instintiva, sim, há.

Para além de não estar disponível em nenhuma plataforma atual, exceto a Steam, o jogo original possui uma localização inglesa atolada de erros ortográficos e gramaticais e problemas de formatação – tornando quase indispensável a aplicação de um fanpatch da Committee of Zero após a instalação para retificar estas lacunas. Por seu lado, Steins;Gate Elite não só opta por descartar a tradicional apresentação em CGs e sprites em favor de reciclar capturas de imagem menos imersivas do anime, como também possui um argumento revisto, para não dizer amputado, que remove mais de 30% do texto original.

Isto para não dizer que, mesmo na sua prístina versão japonesa, STEINS;GATE nunca foi perfeito, em grande parte por causa da sua mecânica central, intitulada Phone Trigger. Ao longo da história, recebemos vários SMSs dos nossos aliados, em que algumas palavras-chave estão destacadas. Se selecionarmos uma destas, Okabe enviará uma resposta centrada nesse assunto ao seu interlocutor. Este sistema é inócuo quando serve para conhecermos alguns detalhes extra do passado das personagens; no entanto, é irritantemente críptico para quem pretende desbloquear o final verdadeiro. Este processo implica que o jogador responda às mensagens de Kurisu de uma forma específica, sem que o jogo nos instrua para esse efeito ou dê qualquer indicação do nosso progresso. Alcançar a conclusão definitiva da narrativa sem um guia, mais do que frustrante, é incontornavelmente inviável para qualquer humano saudável.

Assim sendo, um remake para as plataformas modernas com uma localização primorosa do argumento original, uma reformulação dos requisitos do final verdadeiro e as expansões de conteúdo que a MAGES prometeu, teria tudo para ser a edição definitiva de STEINS;GATE.

Infelizmente, RE:BOOT não é esse produto idílico. Este remake translada o sistema Phone Trigger mensagem por mensagem e herda o argumento base de STEINS;GATE ELITE, partilhando as suas gravosas omissões. Excetuando a completa remoção de ênfase e agência de uma dada personagem, não consigo deslindar as deixas individuais removidas, mas pressinto o seu efeito. O pacing foi apressado, uma porção do worldbuilding e dos elos de ligação com a restante série SciADV foram cortados, e os monólogos internos de Okabe foram encurtados. Provavelmente por esta condensação dos pensamentos do jovem e do consequente distanciamento entre jogador e protagonista, os murros emocionais, ainda que potentes, não me atingiram com o mesmo ímpeto de outros tempos.

Em compensação, RE:BOOT integra novas cenas na história com elegância e harmonia. Novatos não conseguirão definir o ponto de corte, mas os veteranos apreciarão o modo como complementam cenas já existentes e culminam numa experiência mais consolidada e redonda – sendo as mais importantes uma conversa jocosa que alude a elementos do universo introduzidos em Steins;Gate 0, e uma nova rota para a Moeka que repara o seu estatuto como a única heroína sem um final associado. Esta ramificação da narrativa transporta-nos para o Gamma Attractor Field, originalmente explorado no Drama CD Steins;Gate: Hyde of the Dark Dimension; todavia, os eventos descritos em RE:BOOT divergem bastante dos do CD, garantindo que este conteúdo será inédito até para quem já ouviu o disco (ou para quem é uma fraude como eu e apenas tiver lido o seu resumo na wiki de STEINS;GATE).

Paradoxalmente, a nova rota é simultaneamente desapontante e empolgante. Ou melhor: é desapontante justamente por ser empolgante. Ao contrário das restantes rotas, as Wordlines Gamma deixam uma história por contar, pois são as que mais rompem o status quo desta iteração de Akihabara. Este novo trecho de enredo soma revelações estonteantes em cima de revelações estonteantes, arrancando o chão sob os meus pés tal como se tivesse regressado ao sedutor mundo de caos e desconcerto de STEINS;GATE 0. A rota atinge um fim abrupto quando, após todas estas munições serem carregadas, Okabe é obrigado a disparar o primeiro tiro. Teria adorado descobrir como Rintaro navega esta realidade eletrizante, mas compreendo porque é que as Wordlines Gamma não mereceram um jogo próprio, e por que este foi o ponto de corte escolhido. Uma coisa é certa: se a minha grande reclamação deste capítulo é que queria mais, é porque foi uma estupenda adição ao jogo.

Por fim, o argumento clássico recebeu uma localização quase irrepreensível do duo veterano Steiner  e Blick Winkel, onde apenas sobressaem erros gramaticais raríssimos. Existem defeitos a apontar: a maioria das CGs não é traduzida, as caixas de diálogo que incluem 4 linhas são comprimidas, e o uso de maiúsculas para colocar ênfase no texto ou sinalizar o uso intrauniverso da linguagem inglesa (pelas personagens japonesas) é uma escolha infeliz. Por exemplo, num dado momento, Okabe recebeu um SMS em inglês (língua em que não é fluente) e, apenas após o texto explicitar o idioma da mensagem, pude compreender a sua confusão. Esta foi, no entanto, a única situação em que estas lacunas prejudicaram minimamente a minha experiência; para todos os efeitos, esta é uma localização estelar para o género e resolutamente a melhor tradução oficial oferecida para esta narrativa.

Para além do argumento, também os visuais e músicas foram totalmente repaginados. As personagens foram reimaginadas num novo estilo artístico, que se posiciona num meio-termo salubre entre a arte icónica original e uma direção anime mais convencional. Inclusivamente, uma das figurantes secundárias até teve direito a expressões faciais inéditas para sinalizar a mudança de personalidade que sofre. Mais do que servir como alternativa às sprites originais, estas representações das personagens são animadas com a mesma tecnologia E-Mote de ANONYMOUS;CODE mas que, em virtude dos seus movimentos mais contidos e de um estilo anime mais tradicional, conferem vida e naturalidade aos movimentos e lip-sync das personagens sem as tornar em bonecos articulados de papel do infantário.

Adicionalmente, a música e as voice lines foram regravadas na sua totalidade, mantendo todo o brilhantismo original, e o número de CGs (ilustrações) foi expandido, de 72 para 113 (105, se descontarmos as 8 associadas às novas cenas de RE:BOOT). Seja ao pontuarem dadas situações com novas imagens dedicadas, seja por passarem a animar as personagens dentro das próprias CGs, o remake amplifica a imersão da narrativa e intensifica o impacto de certos momentos-chave, como a resolução de um sonho de Suzuha e a decisão final de Okabe no capítulo 5. Contudo, a soma não é a única operação encetada por RE:BOOT: várias das ilustrações originais foram pura e simplesmente subtraídas, tais como várias notícias de jornal e o conjunto de diagramas que dinamizava a explicação das teorias de viagens no tempo. Olhando para a seleção como um todo, a MAGES foi extremamente conscienciosa nas imagens que incluiu e, salvo uma peculiar exclusão na rota de Luka, as ilustrações que STEINS;GATE gravou na vossa memória figuram, de uma forma ou de outra, no remake.

Para concluir, esta reedição adiciona ainda um novo modo Observer, que é basicamente uma linha cronológica da história, que discrimina todas as cenas individuais a que já assistimos. É sentida a falta de uma opção de zoom in e zoom out e da opção de retomar o jogo a partir de qualquer um dos pontos assinalados, mas como um conteúdo bónus, é difícil encontrar a energia para criticar Observer. A cavalo dado não se olha o dente, ainda para mais quando este cavalo foi determinante para eu conseguir platinar RE:BOOT no período pré-lançamento. O port implementa ainda a possibilidade de experienciar todo o jogo apenas com recurso ao rato (para além dos esquemas convencionais de teclado e comando), e não causa nenhuma das dores de cabeça usuais das versões PC de visual novels. Notem, no entanto, que os jogadores da Steam Deck precisarão de ativar Proton GE para ouvirem as voice lines das personagens.

E, portanto, este é STEINS;GATE REBOOT. Em suma, uma versão sintetizada ou estendida da visual novel que bem conhecem, dependendo do vosso termo de comparação, ou que já deviam conhecer. Porém, contrariando a razão e a globalidade do marketing feito pela MAGES e Spike Chunsoft, eu esperava algo mais.

Não sejamos sonsos: o subtítulo em nada inocente de RE:BOOT, os fenómenos de glitch e aberração cromática que permeiam os panos de fundo, os efeitos visuais que acompanham os saltos de Okabe, o regresso do cast original para regravar todas as linhas de diálogo, a direção artística da animação de abertura… Após as revelações e eventos cataclísmicos de ANONYMOUS;CODE, todos estes indícios apontavam para um remake revolucionário no estilo de Final Fantasy VII. Em vez de olharem para o dente do cavalo, tirem-no da chuva: a MAGES prometeu um remake, e é um remake o que aqui têm. Os desenvolvedores atiraram-nos um osso, na forma de uma cutscene revelada aos que aguardarem um minuto no black screen que sucede o fim verdadeiro, mas este osso remete para o futuro as promessas inquietantes que esperava ver concretizadas em RE:BOOT. Surpreendentemente, a história que eu esperava ser o cavalo de Tróia com que a MAGES promoveria SciADV, mais uma vez, demonstra desinteresse e vexame em divulgar o universo magnetizante que integra.



Conclusão

A questão que STEINS;GATE RE:BOOT coloca não é "devo jogar STEINS;GATE?" - quando falamos de uma narrativa tão emocionalmente tocante, cognitivamente estimulante, e holisticamente inesquecível, a resposta é, e sempre será, sim.

O grande dilema é se se consegue afirmar como a versão definitiva das peripécias de Okabe. Com o esmero com que reinventa as gravuras, reinterpreta os sons, e expande a história, RE:BOOT é impreterivelmente a melhor edição desta experiência nas consolas. Contudo, a reutilização do argumento depauperado de ELITE STEINS;GATE é um flagrante tiro no pé que o impede de eclipsar a edição original nos PCs.


O melhor

  • A sempre radiante e intemporal narrativa pelo tempo;
  • Expansão da história com cenas inéditas, com destaque para a rota eletrizante da Moeka;
  • Nova direção artística cativante, acompanhada por animações naturais e vívidas;
  • Músicas e atuações vocais regravadas, sem perder a energia e atmosfera originais.


O pior

  • Reutilização do argumento abreviado de STEINS;GATE ELITE;
  • Sabe a pouco após os eventos de ANONYMOUS;CODE;
  • Requisitos exasperantes de desbloqueio do final verdadeiro;
  • Problemas menores ao nível da localização e exibição;

Nota do GameForces: 8.0/10


Título: STEINS;GATE RE:BOOT
Desenvolvedora: MAGES
Editora: Spike Chunsoft 
Ano: 2009-2026

Nota: Esta análise foi realizada com base na versão digital do jogo para a Steam, através de um código gentilmente cedido pela editora.

Autor da Análise: Tiago Sá

Análise | STEINS;GATE RE:BOOT - Reinicia o Jogo e Toca o Mesmo Análise | STEINS;GATE RE:BOOT - Reinicia o Jogo e Toca o Mesmo Reviewed by Tiago Sá on agosto 17, 2026 Rating: 5

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