A Nintendo deve ver os fãs de
Star Fox como um cardume de peixinhos dourados. É a única explicação para que,
dos nove jogos principais, cinco assentem na mesma história, jogabilidade e
estrutura. Se te perguntarem sobre o jogo em que controlamos Fox McCloud (o líder
do esquadrão de mercenários Star Fox) para travar os planos de destruição e
conquista intergaláctica do cientista malévolo Andross, cinco anos após o
perecimento do seu pai numa cilada deste vilão, só Deus sabe a que
é que se estão a referir.
Podem estar a falar do respeitável
Starwing para a Super NES, que deu o pontapé de saída na saga. Ou não, porque
não podemos esquecer Lylat Wars para a Nintendo 64 (apodado de Star Fox 64 nos
EUA), que poliu e expandiu os alicerces do predecessor numa reimaginação primorosa
e intemporal. E ainda por cima essa reimaginação, por sua vez, também teve
direito a um remaster (Star Fox 64 3D), uma reimaginação (Star Fox Zero – reimaginaception?)
e, agora, a um remake novinho em folha para a Nintendo Switch 2, intitulado Star
Fox.
Perante este historial, não é
necessário um psicoanalista para suspeitar de uma fixação insalubre por Lylat
Wars, mas também não é preciso um historiador de jogos para entender como esta reflete
a solidez da jogabilidade e formato. Na esmagadora maioria do tempo, o caminho até
Andross define-se por segmentos de shooting on-rails, ou seja, percursos
em que avançamos automaticamente em diante a bordo da nave militar Arwing, mas conseguimos movermo-nos bidireccionalmente para fugir de obstáculos e apontar para os construtos inimigos que queremos encher de lasers e bombas. Existem
adicionalmente segmentos All-Range, em que controlamos livremente a navegação
da Arwing em arenas fechadas, seja para defender bases estratégicas ou para abater
bosses imponentes.
Estas duas formas de jogabilidade
são combinadas e revezadas ao longo de cada nível de Star Fox, que corresponde diretamente
a um dos planetas do Sistema Lylat. Esta estrutura não só suscita biomas
radicalmente diferentes, mas também mecânicas e cadências de jogo diferenciadoras.
Numa missão, voamos sobre a superfície incandescente de uma estela anã, recolhendo
itens de vida para recuperar o dano regular que o calor inflige na Arwing; noutra,
trocamos a nave por um tanque no terreno para navegarmos as tempestades de
areia de um planeta inóspito.
A variedade em jogo em Star Fox é
tão ampla que, chegados aos créditos, é certo que se recordarão de todas as paragens
no vosso caminho… algo facilitado por precisarem de apenas duas horas para destronar
Andross. Noutro jogo, a modesta duração seria razão para marchar com indignação
e tochas acesas, mas Star Fox deixa evidente que os créditos são só o começo. Percebemos
que o jogo nos avalia em função do número de hits que desferimos pelos
níveis; descobrimos que metade dos planetas ficou por visitar e que o nosso
sucesso nos objetivos de missão, aparentemente opcionais, determina a nossa
rota pelo Sistema Lylat e o desfecho mais ou menos satisfatório da história.
Há uma diferença monumental entre
terminar Star Fox e superar Star Fox. Se calhar, no vosso primeiro voo por este
sistema planetário, deram-se por satisfeitos simplesmente a sobreviver aos voos
em carris e a derrotar os bosses estranhamente fáceis que teimam em não
sair da vossa frente; porém, na campanha seguinte, são bem capazes de abater
desenfreadamente tudo o que se move e defender a vossa frota com uma garra recém-descoberta.
Esta dualidade de experiências é a
grande carta na manga de Lylat Wars: ao mesmo tempo que a acessibilidade da sua
conclusão torná-lo apetecível para os jogadores mais novos, a caça aos recordes e objetivos opcionais atiça os jogadores experientes a repetir a campanha três, seis, nove
vezes. Se apenas quiserem terminar o jogo e encostá-lo, Star Fox é um péssimo investimento.
Se ambicionarem espremer todo o seu sumo, descobrirão que é uma proposta no bom
e viciante estilo árcade, com muita uva e pouca parra.
Face à densidade e redondez do
jogo, um redator provocador sugeriria que esta fórmula vencedora sustentaria mais
uma sequência do que um remake. Star Fox 64 conserva-se magnetizante
hoje como era em 1997, e os seus controlos mantêm-se suaves como manteiga e suculentos
como… uma torrada com manteiga derretida? Não há muito por onde refinar Lylat
Wars, e a direção tomada pela Nintendo e pela Velan Studios nesta versão
reconhece-lhe este mérito: podemos estar perante uma nova engine, novos designs
de personagem e novos dobradores, mas a jogabilidade transitou verbatim para
o remake, como se a magia da campanha original fosse um castelo de cartas
em risco de desmoronar ao mais brando toque.
Existem novidades em Star Fox,
mas nenhuma ousa interferir nos fundamentos mecânicos do jogo. Foi adicionada a
dificuldade Easy, que aumenta a resistência da nossa nave e dos nossos aliados
de combate para maximizar a acessibilidade. No reverso da moeda, foi
implementado um Modo de Desafios deliciosamente exigente, que nos incita a
repetir os níveis para cumprir tarefas que vão desde o simples ao diabólico,
como derrotar um boss em 10 segundos ou terminar um nível sem recuperar pontos
de vida – dando-nos um pretexto arrebatador para darmos mais umas voltas por
Lylat e impulsionando o replay value, que já se encontrava na
estratosfera, até à exosfera. O modo de batalha foi reinventado com combates 4
contra 4 e objetivos diversificados, apresentando tanta profundidade inesperada
e deleite estupendo que seria o ponto alto do pacote se não fosse traído pela seleção
anémica de 3 mapas.
A única adição que aparenta colocar
a Velan Studios em rota de colisão com a jogabilidade é a adição de controlos
de rato. Leitores
assíduos deste site recordar-se-ão da minha ânsia por este método de introdução…
mas não a visionava nos moldes aqui concretizados. As minhas pretensões de
controlar o voo da Arwing e a mira de modo independente, fosse com controlos
por movimento ou rato, saíram completamente goradas pelo remake, que
opta por posicionar os controlos de rato como uma alternativa e não como um
complemento ao estilo de jogo tradicional.
A nossa gama de ações e grau de
controlo sobre a Arwing permanecem intocados – porém, agora podemos optar por manter o ponto de vista abrangente e os controlos familiares do esquema tradicional, ou apostar
nos novos controlos para gozar de uma margem ínfima de controlo extra sobre os
disparos, embrulhada na obrigatoriedade de assumir o ponto de vista imersivo
mas restritivo do cockpit. Não vale a pena definirem a priori o
modo que utilizarão: Alternar entre os estilos é tão simples quanto levantar ou
arrastar os Joy-Con 2 numa superfície estável a qualquer instante da
jogabilidade, pelo que poderão testar ambas as opções ao vosso bel-prazer.
Escusado será dizer que, se a Velan Studios não ousou desvincular a mira da navegação, dificilmente investiria em alterações ao nível do conteúdo. Assim, Star Fox (2026) conta com a exata seleção de planetas da obra original, o que configura uma oportunidade perdida dada a natureza modular da experiência. Um remake desta envergadura é essencialmente um recomeço para Fox e os seus três colegas, e os desenvolvedores podiam tê-lo afirmado não só com uma revitalização do material áureo doutros tempos, mas também com um amuse-bouche do que o futuro nos reserva, sanando assim a sede de novos conteúdos aos fãs da velha guarda.
As direções possíveis eram
imensas: podiam abrir as comportas a novos planetas, novas rotas ou, pelo menos,
a soluções arrojadas para problemas antigos. Por exemplo, numa correção extremamente
seletiva, a Velan Studios fechou um dos plot holes mais flagrantes da versão original, em que Fox e companhia se podiam deslocar ao planeta Titania para cumprir
um propósito que, em certas rotas, é manifestamente estapafúrdio. Para esse
efeito, os desenvolvedores barraram o acesso a Titania nesses percursos; porém,
por que não dar aos mercenários uma razão distinta para desbravar o planeta? Se
a conceptualização de localizações inéditas era demasiado dispendiosa, a elaboração
de trajetos alternativos pelos mesmos locais expandiria o leque de conteúdos
com eficiência.
Qualquer ideia deste foro está
condenada ao domínio dos “e ses?”: Star Fox (2026) dedica-se principalmente a
adições cosméticas. Não desejo que compreendam “cosméticas” como um desaforo
desdenhoso e desditoso; afinal de contas, o mais notável chamariz deste remake
é precisamente a sua revolução visual, num estilo fotorrealista. Os resultados são
mistos para as personagens: por exemplo, a Katt redesenhada indicia um consumo
excessivo de tudo o que não se deve comprar nas traseiras da escola, e as feições
afiadas e esguias de Falco, que comunicavam visualmente a sua natureza impulsiva, estão
agora soterradas sob uma montanha de penas e suportadas por duas coxitas de
frango que despojam o franganote de qualquer pujança ou gravitas. Porém,
o impacto nos ambientes não poderia ser mais positivo.
O salto colossal de performance
permitido pela Nintendo Switch 2 resulta num Sistema Lylat mais fascinante do
que nunca. Seja nos efeitos luminosos dos nossos torpedos em Aqua, ou nas
condições meteorológicas dinâmicas de Corneria, o remake firma-se como um testemunho
do potencial da nova geração: tal como Lylat Wars foi uma demonstração das
capacidades da N64, Star Fox (2026) dá-nos um vislumbre da fidelidade e
sofisticação gráficas que os futuros exclusivos da Nintendo nos reservam – sem
perder de vista a atmosfera original, que apenas é minorada quando certos oceanos de negrume
que formavam o vazio avassalador do espaço agora se desenham por entre nuvens
de poeira estelar e constelações. O detalhe técnico e artístico de cada
ambiente alia-se aos miríficos efeitos materiais e luminosos, induzindo um
deslumbramento que somente se esbate durante as cinemáticas pré-renderizadas a
30FPS (pelo contraste gritante que estabelecem com os 60FPS constantes da jogabilidade).
Quando digo que o fascínio se
esbate, digo que é esbatido muuito ao de leve, porque a evolução marcada nestas sequências suplanta de longe as contrapartidas menores. As cinemáticas presentes no jogo
base foram repensadas e, salvo algumas exceções (como a cena de créditos e
a introdução do submarino Blue-Marine, que padecem de uma direção menos
evocativa e memorável), o seu novo grandeur dá uma escala sem
precedentes a este conflito intergaláctico – especialmente por estarem
acompanhadas de sumptuosas reinterpretações orquestradas das músicas originais,
gravadas nos renomados Abbey Road Studios (os mesmos que receberam bandas como The
Beatles!).
Mas os momentos regravados são a
ponta do iceberg. Se, nas edições 64 e 3DS de Lylat Wars, estas cenas eram uma
nota de rodapé, na Nintendo Switch 2 existem em número e com substância suficiente
para rivalizar os lançamentos modernos. A emboscada trágica que precipitou a
guerra em Lylat deixou de ser veiculada num title crawl ao estilo Star Wars e
tem agora direito a uma sequência própria que mostra a vivo e a cores a incursão
do pai de Fox ao planeta Venom. Os diálogos lacónicos que iniciavam cada missão deram
lugar a reuniões extensas entre os quatro pilotos e o General Pepper, permitindo-nos conhecer apropriadamente os objetivos das expedições e a importância de cada localização-chave do sistema planetário.
No mesmo âmbito, os diálogos que o
esquadrão Star Fox troca foram expandidos com linhas inéditas, na dose certa
para complementar a direção original sem gerar estranheza ou cansaço nos
jogadores.
É notório o esforço adicional de
contextualização e, em virtude de todas estas adições, a história e o
worldbuilding saem reforçados. Não obstante, quando se elabora uma base tão
simples com esta exaustividade, é natural que exista uma discrepância entre os
buracos preenchidos pelos desenvolvedores e os buracos que os fãs preencheram
na sua imaginação - lamentavelmente, esse distanciamento é sentido em vários dos
protagonistas.
O exemplo mais evidente é o próprio
Fox McCloud: no recato que o protagonista mantinha ao longo de Lylat Wars e na sua prontidão
para ajudar o General Pepper, adivinhava-se um perfil heroico em perfeita
harmonia com as suas pretensões mercenárias. No entanto, o Fox que acompanhamos
na Switch 2 não só aparenta ser movido unicamente por dinheiro, mas também se
refere ao seu pai com menosprezo. Similarmente, Falco Lombardi, que era impulsivo
mas amistoso na Nintendo 64, passou a emanar uma vibe agastante de I’m
too good for this sh**, resmungando constantemente contra tudo e contra
todos. Corneria pode estar mais bela do que nunca, mas os Cornerianos não
possuem o carisma doutros tempos.
E o problema não está apenas no que
dizem, mas em como o dizem. Não posso opinar sobre a qualidade da dobragem em português do Brasil (fujo sempre dela como
o Diabo da cruz), mas a localização inglesa atenua a força do argumento e dos acontecimentos. A culpa não é das vozes escolhidas, que encaixam como uma luva
nos intervenientes (exceto Slippy, que soa como se fosse mostrar a sua coleção
de cartas TCG a qualquer momento), mas sim nas inflexões vocais. Um adversário que
encarava uma morte iminente com pânico agora demonstra menos irritação do que eu
quando queimo uma lasanha; o cientista genial que nos provocava num tom
gelidamente austero agora expressa-se que nem uma rapariga de anime pindérica. Grosso
modo, as entregas são menos autênticas e memoráveis; em certos momentos, se
fecharmos os olhos, pressentimos a frieza e artificialidade das paredes brancas da cabine de
gravação. Star Fox (2026) galanteia-nos com a melhor forma de jogar Lylat Wars,
mas não transparece tão cristalinamente o porquê de ser tão adorado e citado até
hoje.
Conclusão
As más línguas poderiam afirmar que Lylat Wars não precisava de uma nova versão, mas Star Fox justifica a sua existência com a deferência e primor com que revitaliza o clássico para uma nova era. Os novatos nesta aventura nem suspeitarão que as raízes desta campanha recuam a 1997, dada a qualidade intemporal da jogabilidade de base e a magnitude das atualizações encetadas na história e na apresentação. Por seu lado, os veteranos descobrirão nos novos modos um convite irresistível para regressar onde foram felizes - embora algumas das alterações às personagens e à direção vocal possam desiludir os entusiastas mais acérrimos.
O melhor
- Jogabilidade arcade empolgante e viciante...;
- ... Adaptada com primor e fidelidade do jogo original;
- ... E dotada de imenso Replay value, seja pelos méritos da estrutura original seja pelo novo Modo Desafio;
- Bela renovação visual;
- Magnífica banda sonora orquestrada;
- Modo de Batalha surpreendentemente rico em profundidade...
O pior
- ...mas pobre em conteúdo;
- Sem novos níveis ou rotas;
- Novos designs de personagem controversos;
- Reinterpretação desapontante dos traços de personalidade dos heróis;
- Atuação vocal prosaica.
Nota do GameForces: 7.5/10
Nota: Esta análise foi realizada com base na versão digital do jogo para a Nintendo Switch 2, através de um código gentilmente cedido pela editora.
Autor da Análise: Tiago Sá
Reviewed by Tiago Sá
on
julho 21, 2026
Rating:















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