Análise | Tomodachi Life: Living the Dream - O Bom Filho à Ilha Torna

O ano era 2014. Aproveitando a Character Sale de Super Smash Bros. 3DS, e instigado pela confiança cega e pueril que colocava na qualidade dos produtos Nintendo, adquiri Tomodachi Life sem qualquer pesquisa prévia. O tiro no escuro acertou na mouche: para um jovem adolescente, era uma diversão infinda transformar conhecidos e celebridades aleatórias em avatares Mii e assistir às cenas surreais que protagonizavam nos diversos recantos e estabelecimentos de uma ilha paradisíaca. Algum tempo mais tarde, o calendário marcava 2016, e a Nintendo molhava os pés na esfera mobile com Miitomo: uma rede social baseada em perguntas e respostas, construída em cima dos pilares elementares de Tomodachi. Era básica, mas era uma desejável gasolina para atirar sobre a fogueira de impudência da juventude, ao atiçar um incansável toma-lá-dá-cá de deixas indecentemente estapafúrdias.

Agora, o ano é 2026, e a promessa que Tomodachi Life: Living the Dream dirige aos jogadores é a mesma. Em contraposição, o Tiago que vos endereça esta análise mudou, e não foi pouco: agora tritura os seus dias num full-time, coleciona afazeres como cromos de caderneta e range os dentes quando se lembra da sua idade. Dez anos mais tarde, conseguirá um adulto retirar algo de um jogo tão dependente de pensamento mágico?

A resposta é sim. Para mim. É preciso serem um tipo específico de pessoa para apreciarem Living the Dream: não podem vir à procura de uma história para experienciar, objetivos claros a cumprir, arduidades a ultrapassar. Nem podem esperar simular a vossa vida de sonho e comandar cada ato microscópico de uma comunidade servil. Tomodachi Life está mais para um reality show a 500 à hora, uma bolha de caos e humor absurdo que podemos guiar, mas nunca subjugar… e, paradoxalmente, um convite para saborearmos e nos deleitarmos nos momentos mais irrisórios e burlescos. Se chegaram a este título com uma fronha sisuda e músculos do riso atrofiados, não percam tempo a estacionar: estão a desembarcar no jogo errado.

Tal como nos predecessores, o jogador é transportado para uma ilha e encarregado de a preencher com personagens Miis criadas por si. Não para as controlar ou para viver ombro a ombro com elas, mas para as acompanhar de um plano superior, à medida que estas formam e desfazem amizades e relações amorosas, juntam-se em partidas inocentes e discussões acesas, constituem família e viajam à superfície da Lua - às vezes, conseguem fazer tudo isto num dia. No meio deste microcosmo de existência, apenas podemos observá-las, e dar-lhes uns empurrõezinhos nas direções que queremos – como se fôssemos uma figura divina que convive e guia as suas criações, sem se sobrepor à sua autonomia.

É facto que somos nós quem decide as feições, voz e traços de personalidade gerais que os Miis apresentam ao mundo, bem como a roupa que vestem, as iguarias que abocanham e as posses materiais que ostentam. Similarmente, nenhuma mudança substancial na vida dos Miis, seja o princípio de um relacionamento amoroso ou uma remodelação da casa, é firmada sem a nossa bênção. Contudo, ao passo que avatares de jogos como Sims não passam de títeres subordinados aos nossos comandos, os Miis nunca caem no nosso controlo direto e vivem em permanente autonomia, não tendo quaisquer reservas em furar os nossos planos. Por vezes, aquela cantada genial que instruímos o nosso Mii fac-símile a debitar à sua cara-metade culmina numa rejeição insanável. Uma amizade que dedicamos dias a edificar pode-se desmoronar por uma discussão sobre bolas de Berlim.

E uma zanga por bolas de Berlim não é um exercício de hipérbole. Contemplamos a realidade dos Miis e espreitamos os seus sonhos, e é difícil afirmar qual dos dois mais desafia a lógica. Ora batemos de caras com uma dança de devoção a um petauro-do-açúcar, ora vemos os traços faciais de um Mii caírem ao chão com um susto. É o império do ridículo, uma celebração da lógica slapstick dos melhores desenhos animados (a única lógica que encontrarão em Tomodachi Life), perfeita para despertar gargalhadas desbragadas em crianças e jovens.

Foi em virtude desta coalizão do inesperado e do bizarro que o Tiago do ensino básico tanto se enredou no predecessor para a Nintendo 3DS. E é em virtude da sua repristinação elegante para a Nintendo Switch que Living the Dream se configura como uma aposta radiante para os mais novos. Lamentavelmente, esta experiência de simulação não está localizada para português; contudo tal não vos deve deter se pretenderem dar (ou que os vossos rebentos deem) os primeiros passos em idiomas como inglês e espanhol. Noutro toque de irrealidade num jogo que resiste à caracterização fácil, Tomodachi Life contrasta o design cartunesco dos Miis com fotografias reais de milhares de pratos, objetos comuns e pontos turísticos devidamente identificados, tornando-se numa forma excelente de alguém se familiarizar com as suas designações estrangeiras.

Apesar desta recomendação assertiva, a minha experiência como adulto foi notavelmente diferente. As amistosas peripécias dos Miis que os desenvolvedores codificaram arrancam-me pouco mais do que umas fungadelas do nariz, e não consigo investir-me na maior parte dos acontecimentos aleatórios quando pressinto a frieza e despropósito das linhas de código na sua base. Se este fosse um simples port de Tomodachi Life (ao estilo de Miitopia), o meu investimento no jogo seria sol de pouca dura.

Felizmente, Living the Dream tem imensas novidades que o levam muito além de um simples Tomodachi Life HD, e a maior parte converge num objetivo: amplificar o input do jogador nos acontecimentos da ilha. É uma direção magistral para tomar numa sequência a Tomodachi, ao combater diretamente o maior defeito do predecessor: por depender largamente do fator surpresa, Tomodachi Life (3DS) era inelutavelmente finito e o seu apelo esvaecia-se assim que escarafunchássemos o fundo ao seu repertório de frases feitas e de eventos únicos. Com a sequência, os desenvolvedores da Nintendo entregaram-nos os instrumentos para expandir o conteúdo do jogo, o que não só protela o seu inevitável fim, mas também estreita a nossa ligação com a ilha virtual.

Já podíamos dar a cada Mii frases específicas para usarem em determinadas situações, mas agora podemos também eleger as alcunhas pelas quais os Miis se chamarão mutuamente e atribuir-lhes traços de comportamento (intitulados Quirks) que alterarão os seus maneirismos. Mas a verdadeira reinvenção da roda neste campo foi o novíssimo dicionário de tópicos, comum a todos os habitantes da ilha.

De vez em quando, os Miis lá vos vão perguntar qual é o melhor assunto para puxar quando querem conhecer ou encantar um vizinho, ou dirigir-vos perguntas inocentes sobre os vossos gostos ou a vossa vida fora do ecrã da Switch. Ao início, estas parecem apenas intervenções descartáveis e uma forma adorável do jogo nos envolver nos eventos. Porém, não tardará até que as vossas respostas reverberem pela ilha em todo o tipo de conversas e contextos, espalhando-se como uma labareda com um rumo imponderável.

Naturalmente, vocês sabem exatamente os cunhos pessoais que concederam à ilha. A surpresa surge quando uma deixa que nem se lembravam de ter introduzido desponta num contexto inesperado, ou quando as personagens relacionam dois conceitos numa forma tão brilhante que parece impossível acreditar que foi aleatória!

Este efeito borboleta não se fica apenas no campo do léxico, porque Tomodachi Life introduziu um sistema de criação com o qual podem inventar alimentos, peças de roupa, papéis de parede e tesouros (incluindo livros, videojogos e até animais de estimação!) personalizados. Se pode ser desenhado (e se houver paciência que baste), pode ser criado! A complementar este sistema, foi-nos confiado o design da ilha: somos nós quem decide as coordenadas de todos os edifícios, estradas e decorações – e, como é característico de Tomodachi Life, não nos são impostos quaisquer tempos de espera ou entraves à mudança do plano da ilha, para que nenhuma paralisia de decisão manche a nossa aprazível passagem por este paraíso perdido. É uma novidade que, mais do que reforçar a singularidade da ilha de cada jogador, promete agradar todos aqueles que dedicaram horas a fio a construir o refúgio dos seus sonhos em Animal Crossing:New Horizons.

Esta componente de design nasce doutra disrupção de paradigma: esta massa de terra perdida no oceano é finalmente um lugar verosímil e pulsante. Se antes nos deslocávamos por diferentes locais enclausurados da ilha através de um menu de seleção, o jogo da Nintendo Switch derruba impiedosamente as barreiras entre os seus pontos de interesse. Agora, podemos visitar qualquer milímetro quadrado do território; as casas de banho são o único refúgio dos Miis do nosso olhar divino. Talvez por isso os avatares nunca parem quietos, tais formiguinhas endiabradas, que vagueiam pela ilha encontrando em cada candeeiro público um motivo de distração, e em qualquer arbusto ou banco um ponto de convívio. Mesmo quando o jogo não nos chama à atenção para o comportamento de um dado Mii, é certo que nos despontará um pequeno sorriso se o espiarmos nos momentos mais inconspícuos – seja quando salteia uma das nossas criações na frigideira, ou encadeia numa serenata os assuntos mais disparatados imagináveis. Este mundo exterior não é uma mera exploração caprichosa do poder de processamento da Switch, é uma extensão da energia da experiência e da vivacidade dos Miis.

E nas raras ocasiões represas em que nada parece acontecer, podemos arregaçar as mangas e ser a mudança que queremos ver no mundo! Em Tomodachi Life (3DS), era comum eu encerrar o jogo em desalento em momentos em que não havia nada para ver ou fazer. Em contrapartida, Living the Dream permite-nos agarrar num Mii sempre que quisermos e largá-lo em qualquer ponto do mapa, encorajando-o a interagir com objetos específicos, ou promovendo encontros com personagens específicas. Passamos de uma figura passiva para um agente proativo, num salto tão natural e libertador que eu seria incapaz de regressar ao antecessor e voltar a prender as minhas mãos atrás das costas.

Living the Dream galanteou-me com todos estes instrumentos, e eu não desperdicei nenhum. Afinal, o proveito que extraímos da experiência é escalado em proporcionalidade direta ao nosso investimento nela, quer na nossa abertura ao humor, quer nas escolhas que o título nos estende, quer nas que se geram e existem somente na nossa massa cinzenta.

Ponderei gravemente todas as deixas ensinadas aos Miis, engendrei criações que complementassem as características-chave de cada habitante, e até pensei no que não lhes oferecer, transformando a ilha num pocinho sem fundo de idiossincrasias. Foi com este processo que adotei um Hank Schader (Breaking Bad), isento de quaisquer bens materiais que não sejam pedras e minerais. A uns quarteirões, reside um Homelander (The Boys) com a garganta mais seca do que o deserto do Saara, já que apenas o alimentarei quando tiver leite na ementa (um líquido que insiste em não aparecer nas prateleiras no supermercado ingame) – momento em que, conforme instruído, o antagonista de The Boys responderá com um entusiástico Yummers.

O resultado deste processo cirúrgico foi uma ilha pujante, provocatória, profana (até porque, louvados sejam os Devs, não existe qualquer filtro de linguagem. Um jogo da Nintendo é mais libertino do que esta análise, p***a!), mas primariamente pessoal. Uma placa de Petri onde o conteúdo que criei reage entre si numa imperdível cascata de entropia em erupção. Um enternecedor antro de loucura que me toca no peito, porque foi dele que nasceu.

Foi um trabalho demasiado envolvido para o guardar para mim, pelo que não me eximi de o partilhar com amigos e regozijar-me perante os seus risos e constantes esgares de surpresa. Infelizmente, só o consegui fazer em pessoa, dado que Tomodachi Life: Living the Dream não conta com quaisquer funcionalidades online ou de partilha à distância… nem sequer um sistema de partilha de Miis (e, potencialmente, objetos) por QR Codes, algo que já existia no predecessor para a 3DS!

Esta ausência é especialmente lamentável, dado que minoraria a barreira de entrada aos utilizadores que não têm proficiência ou tempo para dominar os instrumentos de criação. Eu mesmo gostaria de oferecer a Rex (Xenoblade Chronicles 2) as suas vestes icónicas e replicar fidedignamente o seu rosto com recurso a maquilhagem facial (uma nova opção nas criações de Miis que, tal como em Miitopia, permite criar avatares mais parecidos com as suas inspirações), mas tive de escolher entre assumir esse encargo ou ver o sol no fim de semana. Não tenho dúvidas que há centenas de pessoas pela internet que teriam todo o gosto em presentear-me com os seus designs, se a Nintendo lhes desse permissão para tal.    

Para meu infortúnio, os códigos QR são a ponta do icebergue das funcionalidades removidas. Foram descontinuados eventos regulares, como as Rap Battles e as Quirky Questions. Numa lacuna particularmente imperdoável, foi descurado o Concert Hall, onde os Miis capitalizam as adoráveis vozes robóticas que são marca registada da série em espetáculos musicais com letras escritas por nós. Numa alarve ofensa à minha curiosidade, foi eliminado o Rankings Board, em que eram apresentadas várias estatísticas interessantes sobre as personagens, como a sua popularidade e atratividade. Inclusivamente os controlos por toque, que encaixariam como uma luva na interface do software e seriam a minha forma de jogar predileta, apenas estão ativados em duas ou três situações intrincadamente específicas.

Apesar do portfólio estelar de novas adições, não consigo fechar os olhos às suas omissões. Não só pelo seu valor intrínseco, mas porque, nesta fase, já sinto o precípuo agastamento da repetição deste estilo de jogo. É verdade que só cheguei a este ponto com mais de 40 horas de jogo e que ainda mantenho o ímpeto de visitar este mundo virtual todos os dias por 20 ou 30 minutos, mas a motivação para repetir os mesmos ciclos de eventos e diálogos à espera de uma variação inusitadamente memorável nunca poderia ser infinita… e quando algo é bom, queremos que dure para sempre. Fico à espera de uma atualização com os bons velhos conteúdos, Nintendo!

1045 screenshots, e o jogo mal saiu há um mês... Help!



Conclusão

Sob todas as suas camadas, Tomodachi Life: Living the Dream pode ser destilado a uma simples imagem:

É uma forma muito desenvolvida e sincera desta premissa, construindo-se sobre um viciante diálogo constante entre jogo e jogadores – mas não é para todos. Precisam de estar dispostos a entregar-se ao jogo de corpo e alma, dispostos a igualar a energia excêntrica em que Tomodachi se alcandora, inteiramente definida e propelida pelas vossas impressões digitais. Se for o vosso caso, não duvidem: Living the Dream reserva dezenas de horas indescritivelmente fabulosas e memoráveis tanto para as crianças, como para quem mantém viva a criança dentro de si.  


O melhor

  • O charme de Tomodachi Life, renovado para uma nova geração (de consolas, e de jogadores);
  • Mais possibilidades de personalização dos Miis, com maquilhagem, quirks, etc.;
  • Espaço aberto da ilha incorporado no mundo de jogo...
  • ...e planificado livremente pelo jogador.


O pior

  • Ausência completa de funcionalidades online ou de partilha à distância;
  • Remoção de conteúdos relevantes do predecessor;
  • Sem controlos por toque;
  • Repetição inerente à iteratividade dos eventos e conversas.


Nota do GameForces: 8.0/10


Título: Tomodachi Life: Living the Dream
Desenvolvedora: Nintendo
Editora: Nintendo
Ano: 2026

Nota: Esta análise foi realizada com base na versão digital do jogo para a Nintendo Switch, através de um código gentilmente cedido pela editora.

Autor da Análise: Tiago Sá

Análise | Tomodachi Life: Living the Dream - O Bom Filho à Ilha Torna Análise | Tomodachi Life: Living the Dream - O Bom Filho à Ilha Torna Reviewed by Tiago Sá on maio 21, 2026 Rating: 5

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