Análise | South of Midnight – Os Fios Que Nos Unem


Se há algo que os videojogos podem ter em potencial é a capacidade de nos impactar. E de vários pontos de vista. Podem levar-nos a conhecer melhor uma cultura com a qual nunca tivemos a oportunidade de contactar. Podem agarrar-nos com uma história maravilhosa. E podem ajudar-nos a compreender melhor o ser humano com fios narrativos que nos colocam perante nós próprios e perante as vivências dos que nos rodeiam. Parece ser precisamente tudo isto a que South of Midnight se propôs quando chegou à Xbox em 2025 e, agora, à PlayStation. Mas será que esta experiência tem a capacidade de nos condoer, ou deixar-nos-á a sul de nenhum norte?


Em South of Midnight assumimos o papel de Hazel Flood, uma jovem habitante de uma pequena vila no sul profundo americano chamada Prospero. Uma noite, uma grande tempestade apresenta-se mais grave e danosa do que toda a gente esperava, e a sua casa acaba por ler levada pela agitação da água, com a sua mãe, Lacey, lá presa. Numa tentativa desesperada de salvar a sua mãe, Hazel corre atrás da sua casa à medida que esta é arrastada pela água, acabando por perder o seu rasto.

Pelo caminho, Hazel desenvolve os poderes estranhos de uma Tecelã, que a salvam de se afogar e que lhe permitem interagir com a Grande Tapeçaria. Convicta de que a sua mãe ainda se encontra com vida, Hazel utiliza estes poderes para explorar um mundo de fantasia gótica, resolver traumas e angústias de vários habitantes e que tanta corrupção têm causado em Prospero e nas suas redondezas.

É uma premissa bem interessante, e que, felizmente, vai ficando melhor à medida que vamos jogando. O que South of Midnight nos oferece é uma narrativa profundamente emotiva e repleto de fios narrativos impactantes. À medida que vamos ajudando Hazel a encontrar e salvar a sua mãe, vamo-nos cruzando com um leque de personagens ricas, cheias de personalidade e repletas de histórias para contar. Cada personagem tem um historial trágico, contemplando bagagem pesada como perda e luto, incompreensão e abandono, ou bullying e agressão.


South of Midnight navega estes tópicos delicados com uma mestria notável. Estes assuntos são todos tratados com muito cuidado e respeito, com Hazel a ser uma excelente protagonista no que diz respeito à sua reação a todos os acontecimentos. Quer as conheça quer não, Hazel começa sempre com alguma desconfiança ou estranheza em relação às personagens com quem se cruza, mas vai reagindo de forma tocante à medida que desatando os nós da Grande Tapeçaria e percebendo tudo o que as personagens vivenciaram ou vivenciam. A protagonista encarna a reação típica de alguém que apenas sabe dos eventos à superfície, para ir moldando a sua perceção das pessoas à medida que vai conhecendo mais profundamente as suas circunstâncias.

Esta é, sem dúvida, uma das grandes forças de South of Midnight. É uma narrativa que utiliza elementos de mitos e fábulas folclóricas do sul profundo dos Estados Unidos para contar uma história que é, essencialmente, sobre empatia. Dá-nos a conhecer uma cultura bastante específica, e com a qual a maioria das pessoas nunca iria contactar. E fá-lo através dos olhos de uma protagonista que começa por ser reativa e que ganha poderes que a ajudam a desenvolver de forma muito bem-conseguida. Porque os poderes que ganha não são o fim, mas um meio para o seu crescimento pessoal e para nos dar a conhecer o quão importante sermos empáticos e compreensivos com aqueles que nos parecem estranhos ou vis.


Outro grande destaque desta experiência é a sua direção artística. A utilização de cores vibrantes para dar vida ao mundo de Prospero e arredores é extraordinária, mas é nos modelos de personagens e na animação que vemos South of Midnight dar um passo à frente. O design cartoonesco com o exagero de características psicológicas no aspeto físico das personagens é muitíssimo apelativo. Juntando isto ao facto de as cutscenes apresentarem animações estilo stop-motion torna toda a experiência um esplendor de contemplar.

Tudo isto dá uma identidade visual inconfundível e distinta a esta experiência, que certamente me ficará na memória por muito, muito tempo. Apenas tenho a lamentar o facto de persistirem alguns bugs visuais durante a jogabilidade, mesmo após algumas atualizações do jogo. Há alguns elementos ambientais que surgem do nada, ou que ficam a piscar por uns segundos enquanto navegamos pelos níveis. Esta acaba por ser uma queixa pequena, mas que mancha a vertente visual do jogo que, fora isto, é quase imaculada.

Por falar em imaculado, deixem-me fazer uma pregação sobre o quão boa é a banda sonora. Um misto de géneros, que varia entre blues, jazz, soul, country e até um pouco de rock, e com letras belíssimas que vão diretamente ao encontro da temática do fio narrativo no qual estamos mergulhados naquele momento. É uma banda sonora diversa que amplia o alcance emocional de cada momento da história e que fica na memória de quem a escuta com um mínimo de atenção. Se juntarmos a esta banda sonora de Olivier Derivière os fantásticos desempenhos de Adriyan Rae, de Cynthia McWilliams, de Debra Cardona e de Walter Roberts, então podemos considerar todo o design sonoro infalível.


Avançando agora para a jogabilidade, South of Midnight assenta muito bem no rótulo de ação e aventura na terceira pessoa. O jogo está estruturado em capítulos, e cada qual apresenta áreas mais ou menos lineares para explorar e inimigos para combater. Portanto, os momentos jogáveis podem ser divididos em duas partes, cada uma com níveis de qualidade distintos: exploração e combate.

Comecemos pelo que é muito positivo. Explorar o mundo de Prospero é um prazer enorme. No início, apenas podemos pôr Hazel a correr, a saltar e a trepar algumas estruturas. Com o desenrolar da narrativa e com a aquisição de novos poderes, chegamos a um ponto em que quase podemos voar pelos cenários. Nestes momentos, o jogo quase se transforma num título de plataformas e de resolução de puzzles em 3D. É sempre uma alegria estar a analisar cuidadosamente os ambientes e descobrir caminhos escondidos ou perceber como chegar ao topo de uma árvore ou de um rochedo. Não houve um minuto de exploração e plataformas remotamente aborrecido durante as 15 horas de jogo que meti em South of Midnight.

O mesmo não pode ser dito dos momentos de combate. Durante os capítulos, os momentos de exploração e de progressão da narrativa são interrompidos por sequências de combate nas quais temos de enfrentar Haints, criaturas nascidas da corrupção causada pelo trauma, o arrependimento e as angústias da população deste mundo. O sistema de combate tenta implementar levemente alguns elementos de jogos souls-like, mas sem grande sucesso.


Temos ataques leves, ataques pesados de longo alcance e uma esquiva. À medida que vamos batendo nos inimigos, estes mal se mexem a não ser que usemos uma das habilidades especiais ou que a sua barra de vida chegue a zero. Essas habilidades variam entre um nerf momentâneo, um empurrão, um puxão, uma breve possessão e um ataque poderoso que afeta todos os que estão numa área próxima. E é isto.

As sequências de combate resumem-se a derrotar uma mão cheia de inimigos com alguma variedade, mas não suficiente. A meio do jogo, já conhecemos todas as variantes de Haints e já experimentámos com todas as combinações das mesmas. Os poderes que vamos desbloqueando acabam por quase nunca ter grande impacto nos momentos de combate, já que o dano que desferem e o tempo de cooldown que apresentam acabam por não compensar a sua utilização face aos ataques mais básicos.

Os momentos de combate são, portanto, eventos rotineiros e que rapidamente se tornam entediantes. Dei por mim a revirar os olhos mais vezes do que sou capaz de me lembrar quando me deparava com uma arena de combate. E o pior disto é que a skill tree tem pouquíssimo impacto nestes momentos. Supostamente, aumenta o dano ou prolonga os efeitos passivos das nossas habilidades. Mas a sensação com que fiquei sempre que investi numa melhoria e a fui experimentar é a de que essas melhorias são demasiado curtas, ao ponto de mal se notarem.


A acrescentar à festa, o jogo apresenta também alguns problemas de input. A vasta maioria destes problemas ocorre durante o combate. Entre a tentativa de utilização de habilidades que acabaram por não acontecer, alguma demora na leitura de inputs de esquiva e timings estranhos de esquivas perfeitas, há aqui muito que faz com que os momentos de combate deixem ainda mais a desejar.

Os únicos momentos de combate que valem mesmo a pena são os bosses. Fora um boss que é basicamente enfrentar várias hordas de Haints (e já sabem como me sinto acerca disso), as restantes batalhas contra bosses são muitíssimo interessantes. Estas obrigam-nos a usar os poderes e as habilidades de Hazel de formas muito diferentes, e apresentam desafios únicos face ao que encontramos no resto do jogo. Para além de visualmente imponentes, os padrões de ataque e os métodos de vitória não têm nada a ver com os restantes inimigos. Portanto, no que diz respeito às instâncias de combate, estes confrontos são francamente mais positivos.

Por fim, há também que elogiar o vasto leque de opções de acessibilidade e de personalização da experiência. Estas opções são muito variáveis, adicionando uma versatilidade impressionante ao modo como podemos abordar esta experiência. Se, como eu, não gostarem do sistema de combate, podem adicionar a opção de os passar à frente. Se dão por vocês a ter dúvidas constantes acerca de onde ir, há uma opção para terem um fio orientador presente no mundo de forma quase constante. E por aí fora. Esta é uma narrativa que vale mesmo a pena experienciar, e com estas opções, e muitas mais, não existe motivo para não levarem a aventura de Hazel até ao fim.


Conclusão
Enquanto videojogo, South of Midnight é um pouco ambivalente. Por um lado, as secções de exploração, plataformas e resolução de puzzles são tremendamente divertidas. Por outro, a vasta maioria dos momentos de combate é repetitiva e entediante. Contudo, o que une esta experiência e faz com que seja muitíssimo recomendável é a sua história fantástica sobre empatia e como esta pode ajudar a curar o mundo. Com personagens riquíssimas e fios narrativos que ficam na memória durante muito, muito tempo, South of Midnight é uma experiência valiosíssima, e ficamos a torcer por um eventual regresso a este mundo fascinante.

O Melhor:
  • Uma identidade visual única e deslumbrante
  • Uma banda sonora de enorme qualidade
  • Um enredo cheio de fios narrativos emocionantes e tocantes
  • Jogabilidade de plataformas muito divertido

O Pior:
  • Existem alguns problemas de input
  • Combate parco e repetitivo
  • Alguns bugs gráficos
 
Nota GameForces: 8/10

Título: South of Midnight
Desenvolvedora: Compulsion Games
Editora: Xbox Game Studios
Ano: 2026

Nota: Esta análise foi realizada com base na versão digital do jogo para a PlayStation 5, através de um código gentilmente cedido pela editora.

Autor da Análise: Filipe Castro Mesquita
Análise | South of Midnight – Os Fios Que Nos Unem Análise | South of Midnight – Os Fios Que Nos Unem Reviewed by Filipe Castro Mesquita on abril 27, 2026 Rating: 5

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