[Análise] Disco Elysium – The Final Cut [PS5]


Quando nos queremos imergir num videojogo, nada melhor que um bom RPG. O controlo que temos, enquanto jogadores, para desenvolver uma personagem como queremos, ou a possibilidade de tomar decisões que afetam o mundo no qual estamos mergulhados são apenas alguns dos aspetos apelativos de jogos deste género. Eis, então, que surge Disco Elysium, um RPG policial que causou um enorme furor quando foi lançado para PC em 2019. Agora, este título que promete revolucionar o género chegou às plataformas PlayStation, e com alguns extras à mistura. Mas será Disco Elysium – The Final Cut uma experiência divinal, ou prender-nos-á numa dança infernal?


Em Disco Elysium – The Final Cut, assumimos o papel de um homem que acorda sem qualquer memória de si mesmo ou do mundo após vários dias de intensa farra e perdição alcoólica. Cedo percebe que se encontra em Martinaise, um bairro problemático de uma antiga capital mundial, e que é um detetive que lá se deslocou para resolver um homicídio macabro. Ao conhecer o seu parceiro, Kim Kitsuragi, o nosso detetive parte em busca de respostas ao complexo caso policial com o qual se depara, e que poderá ter ramificações políticas e sociais extremamente profundas nesta localidade. Para além disso, terá de redescobrir quem é e desvendar vários mistérios presentes nesta e noutras localidades desta capital, aprendendo sobre a sua conturbada história e atual clima de tensão entre uma poderosa empresa e um sindicato que opera às margens da lei.
 
Disco Elysium é um RPG num mundo aberto jogado a partir de uma vista isométrica. Coerente com o género no qual assenta, uma boa porção da jogabilidade prende-se com a distribuição de pontos para desenvolver determinadas características ou aumentar certas capacidades do nosso detetive. Neste sentido, temos de tomar uma decisão à partida e algo às cegas, ao escolher um de três arquétipos disponibilizados pelo jogo. Cada um destes arquétipos permite-nos especializar a nossa personagem em diferentes combinações de quatro características gerais: intelectual, física, psicológica e motora.
 
Cada uma destas características gerais contém uma série de atributos, os quais vamos poder ir melhorando à medida que avançamos na história e vamos colecionando pontos de habilidade para investir. Esta escolha do arquétipo inicial é importante porque irá limitar o potencial de crescimento de cada um destes atributos, e, portanto, ditará muito do que serão os nossos métodos de investigação, interação e resolução de problemas. Ou seja, dependendo do arquétipo escolhido, seremos capazes, por exemplo, de desvendar e analisar pistas encontradas, mas incapazes de espancar alguém até se obter uma confissão, sobretudo no início do jogo.


Mas como em qualquer bom RPG, esta decisão inicial é importante, mas não definitiva. Isto porque vamos dispondo de inúmeras maneiras de aumentar os limites de crescimento da nossa personagem, como, por exemplo, através de vários itens de roupa que vamos colecionando e que dão um boost a um atributo ou dois. Talvez o método mais interessante seja através do sistema de interiorização de pensamentos. À medida que o nosso detetive vai aprendendo sobre si e sobre o mundo, vai tendo momentos de introspeção que geram pensamentos, com os jogadores a poderem escolher aprofundar alguns deles de modo a ganhar automaticamente pontos para atributos específicos ou aumentar o teto de pontos que cada atributo pode receber.
 
Tudo isto são sistemas impressionantemente implementados no plano de fundo do jogo, que vão afetando tudo o que fazemos ou tentamos fazer "à superfície" do mesmo. O jogador vai avançando na história e resolvendo o caso através da interação com inúmeras outras personagens de Martinaise ou com vários objetos espalhados pelo mundo. Estas características e os seus atributos vão facilitar e dificultar a concretização de ações. Por exemplo, um maior investimento em atributos intelectuais confere-nos a possibilidade de detetar subtilezas nos locais de investigação (por exemplo, tamanhos de pegadas), e incorporá-las em interrogatórios futuros, enquanto maiores investimentos em atributos psicológicos nos facilita a comunicação e empatia com outras personagens, desbloqueando novos diálogos e facilitando a obtenção de testemunhos.
 
De facto, é assim que a grande maioria do jogo se desenrola, entre diálogos e monólogos, com o jogador a ter de ir selecionando várias opções de discurso que se vão apresentando. É também aqui que Disco Elysium se destaca. A variedade de opções, de falas e de atitudes que podemos levar o nosso protagonista a adotar é verdadeiramente impressionante. Podemos fazer com que o protagonista se redima da sua vida devassa, com que abrace por completo um desespero existencial, com que se perca em álcool e drogas, ou com que se torne numa autêntica besta sádica e violenta.
 

O mais impressionante é que todas as opções que são colocadas à nossa frente nunca parecem destoar das variadíssimas situações, da nossa construção da personagem ou das escolhas anteriores. Bem pelo contrário, cada monólogo interior ou cada interação com o mundo vai ter em conta cada escolha, (in)sucesso prévio e até pequenas missões e tarefas secundárias que tenhamos descoberto e concretizado de uma maneira brilhante. Tudo isto confere a esta experiência uma sensação de liberdade e de consequência como pouquíssimos outros jogos, deste género ou de outros, conseguem alcançar.
 
Para dar um twist adicional, Disco Elysium incorpora uma mecânica de lançamento de dados, que faz lembrar um qualquer jogo de tabuleiro ou campanha de algo como Dungeons & Dragons. Em alguns momentos-chave da narrativa, teremos de desempenhar algumas ações cujo sucesso será mais ou menos provável consoante a build do nosso detetive, as ações ou opções de diálogo previamente exploradas ou não, ou até a aquisição de um item importante. O sucesso destas ações nunca é garantido, não importa o quão bem a aptidão associada esteja desenvolvida ou o quão favoráveis sejam todas as condicionantes, uma vez que um lançamento de dados pode levar ao insucesso de uma tarefa extremamente provável ou até ao sucesso de uma tarefa onde este se afigurava praticamente impossível.
 
Há apenas um momento da jogabilidade que tem que ser destacado como negativo, ao ir contra esta fórmula tão sólida que tem sido descrita até aqui. A dada altura, para progredir na narrativa, temos de arranjar uma maneira de entrar num edifício de acesso aparentemente impossível. E a única maneira aparente é através de um momento de lançamentos de dados relacionado com um único atributo muito específico. Tanto quanto percebemos, não há nada que se possa fazer no mundo que ajude a aumentar aqui a probabilidade de sucesso sem um investimento sólido neste atributo. É certo que se pode gravar e tentar a sorte quantas vezes forem necessárias para se conseguir avançar (foi, aliás, a única opção viável que encontramos), mas foi impossível não sentir alguma frustração pelo facto de esta ser a única ocasião onde a liberdade de resolver problemas de modos alternativos nos foi retirada, particularmente num momento tão fulcral da investigação.
 

Apesar desta aparente opção de design algo estranha, a verdade é que tudo isto culmina numa narrativa verdadeiramente imprevisível, com reviravoltas surpreendentes e momentos de tensão elevados, independentemente do rumo que decidimos dar ao desenvolvimento do nosso detetive. Graças a um argumento fenomenalmente bem escrito, a um amplo leque de atividades e missões secundárias para cumprir e a um mundo genuinamente bem construído - com um passado riquíssimo e num presente com conflitos sociopolíticos complexos -, é impossível não nos perdermos neste mundo durante horas a fio. Disco Elysium - The Final Cut é daqueles poucos jogos onde vale a pena ler com plena atenção cada linha de texto com que nos deparamos, tal é a qualidade da escrita e a vontade de querer saber mais sobre este estranho mundo onde o jogo nos coloca.
 
É certo que não será do agrado de todos, tratando-se de um jogo com "pouca ação”. Excluindo três ou quatro momentos mais bombásticos do enredo, praticamente tudo se desenrola através de exploração e opções de texto, mas a robustez de opções e de conteúdo para explorar mais do que compensa isto que alguns verão como um defeito. É quase garantido que chegaremos ao fim da nossa primeira campanha de Disco Elysium com vontade de voltar a mergulhar para explorar esta ou aquela opção de diálogo, para tentar o sucesso de uma ação que “os dados” nos impediram de concretizar, e de responder a vários “E se...?"  com que ficamos.
 
Com tudo isto, estamos perante uma campanha que durará entre 20 e 25 horas a cada jogador, dependendo do quão nos dedicamos à exploração minuciosa e a missões secundárias. Mas chegados os créditos finais, fica-se sempre com a sensação de que ainda ficou tanto por ver e por experimentar, que nos sentimos compelidos a voltar a mergulhar neste mundo, possivelmente com um arquétipo diferente (ou até personalizado), e ver a miríade de opções ou de acontecimentos que o jogo tem para oferecer. É impossível ver tudo o que Disco Elysium – The Final Cut tem numa só campanha - talvez mesmo 5 campanhas não sejam o suficiente -, portanto estamos perante um jogo com um potencial de rejogabilidade quase ilimitado. E o melhor, é que ficamos com uma vontade genuína de começar tudo de novo.
 

Olhando para aspetos mais técnicos, o jogo apresenta-se como competente. A direção artística do jogo é apelativa, dando a este título uma identidade visual muito própria. A vertente sonora é também bastante boa, com uma banda sonora minimalista agradável, efeitos sonoros que pautam bem o impacto emocional das cenas, e, naquela que é uma das novidades desta nova versão, um conjunto de desempenhos de voz que dão uma boa vivacidade a todo o texto que temos perante nós. E em termos de desempenho, o jogo cumpre os objetivos mínimos - isto porque Disco Elysium – The Final Cut apresenta vários pequenos problemas e bugs, mesmo após cerca de uma mão cheia de atualizações.
 
Alguns destes problemas são pequenos, como ligeiras quebras da frame rate nos movimentos do nosso parceiro, e outros são já mais notórios, como clipes de voz que não são reproduzidos em momentos de diálogo. Mas deparámo-nos com alguns problemas mais graves e frustrantes. O mais recorrente foi o ter de selecionar várias vezes o mesmo objeto ou pessoa para que o nosso avatar iniciasse uma interação, denotando uma adaptação imperfeita para consolas. Houve um momento em que uma sala escondida não carregou, forçando-nos a explorar às escuras (e não, equipar a lanterna não ajudou). E o mais grave foi quando iniciámos uma interação de uma tarefa secundária relativamente importante sem que a opção de continuar a interação carregasse, prendendo-nos num trecho de diálogo sem a possibilidade de sair do mesmo a não ser que fechássemos o jogo – processo que levou à perda de, pelo menos, 2 horas de progresso.
 
De um modo geral, os problemas apresentados não nos impedem de olhar para Disco Elysium – The Final Cut como uma experiência fenomenal, mas estes foram numerosos (e ocasionalmente danosos) o suficiente para não poderem deixar de ser tidos em conta, e são, de facto, a única coisa que impede este jogo de atingir a excelência. No entanto, há que referir que os produtores da ZA/UM têm trabalhado incansavelmente para corrigir estes problemas, tendo já lançado várias atualizações que, de facto, melhoraram o geral da experiência. Isto leva-nos a ter confiança de que, mais dia menos dia, e com mais uma atualização ou duas, Disco Elysium – The Final Cut será, de facto, uma das experiências de RPG mais conceituadas e obrigatórias de toda a indústria – podendo até argumentar-se que já o é.
 

Conclusões
Disco Elysium – The Final Cut é um RPG absolutamente brilhante, não há volta a dar. A vastidão de conteúdo para explorar e todos os sistemas de desenvolvimento da nossa personagem garantem que esta é uma experiência robusta, onde dificilmente duas campanhas serão iguais. Ao acrescentar a isto uma excelente narrativa com um dos melhores argumentos que já vimos, estamos perante uma das experiências mais memoráveis desta indústria, falhando a excelência por muito pouco. É certo que o ritmo maioritariamente lento não será do agrado de todos, mas é impossível não recomendar este jogo a qualquer fã de RPGs.

O Melhor:
  • Argumento é do melhor que há na indústria
  • Mundo é genuinamente fascinante, com uma história e conflitos complexos e cativantes
  • Variedade de opções de diálogo e de desenvolvimento de atributos é impressionante
  • Sistema de lançamento de dados acrescenta uma imprevisibilidade bastante interessante
  • Grande quantidade de missões e tarefas secundárias para cumprir
  • Enorme potencial de rejogabilidade

O Pior:

  • Uma ocasião em que o progresso depende demasiado dos pontos colocados num atributo específico, traindo a filosofia geral de design
  • Interagir com o mundo não está totalmente bem adaptado a consolas
  • Ainda existem bastantes bugs e quebras de desempenho, mesmo após várias atualizações
 
Pontuação do GameForces – 9/10
 
Título: Disco Elysium – The Final Cut
Desenvolvedora: ZA/UM
Publicadora: ZA/UM
Ano: 2021
 
Autor da Análise: Filipe Castro Mesquita
[Análise] Disco Elysium – The Final Cut [PS5] [Análise] Disco Elysium – The Final Cut [PS5] Reviewed by Filipe Castro Mesquita on abril 19, 2021 Rating: 5

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