Olá, malta. Há quanto tempo, hein?
A família, os filhos, os gatos – estão todos bem? Sim, já faz algum tempo que
não escrevo aqui. A vida anda difícil, o trabalho é muito, o tempo para jogar é
pouco. Enfim, a vida acontece, mas é sempre um prazer voltar a pôr um texto meu
à frente dos vossos olhos. … Do que é que eu ia falar mesmo?
Ah, certo! Eis algo que,
provavelmente, nunca referi por aqui: para além de videojogos, eu tenho uma
data de outros hobbies – demasiados para o meu bem, há quem diga (eu). Sou, e
continuarei a ser sempre um apaixonado por jogos enquanto as produtoras não
forem todas reduzidas a meia dúzia de pessoas a escrever prompts numa
qualquer LLM, e enquanto o preço de uma consola não for superior ao de um rim
no mercado negro. Mas eu também gosto de fazer outras coisas. O cinema é uma
delas (como podem ver nesta crítica, naquela crítica, ou naqueloutra crítica), e a literatura é outra. E das grandes.
Parece que consigo ouvir os bufares e os
berros de “nerd”, ou “cromo”, ou “feio”. Não sei como souberam do último, mas
passemos isso à frente. Como amante de jogos e de literatura, havia uma série
que há muito despertava o meu interesse – Dungeon Crawler Carl, do autor
Matt Dinniman. Trata-se de uma série de RPGs literários (ou LitRPG, caso
prefiram) que já vai em oito livros (!), faltando ainda, tanto quanto consigo
apurar, editar mais dois. E, portanto, aproveitei este desafio de escrever
sobre outros hobbies para vos falar do primeiro livro desta tão aclamada série. Mas será este
livro um mergulho num mundo do qual não quereremos sair, ou antes um arrastar
para uma masmorra para ficarmos a apodrecer de tédio?
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| Ilustração de |
Em Dungeon Crawler Carl,
conhecemos Carl, um veterano da guarda costeira dos EUA, que vive uma vida
pacata no seu apartamento, com a gata da sua ex-namorada, chamada Princess
Donut. A gata, não a ex-namorada. Uma noite, Donut foge do apartamento,
saltando por uma janela aberta para uma árvore e Carl, algo contrariado, sai
para a rua para a resgatar. E consegue, mas assim que se prepara para voltar
para o apartamento, todo o prédio desaparece, como se tivesse sido esmagado.
Quando uma voz vinda do além explica que a Terra está a ser alvo de megacorporações
de entretenimento alienígenas, Carl e Donut acabam por cair para dentro da
masmorra. E eis que o fim do mundo começa… e é transmitido como um reality
show para todo o universo.
À medida que Carl começa a
assimilar a sua nova realidade – a de que se encontra no meio de um dungeon-crawler
RPG na vida real – cruza-se com Mordecai, um guia tutorial carismático e
empenhado em garantir que Carl e Donut sobrevivem – isto é, quando não bebe até
à ruína. Mas antes de Carl conseguir sequer perceber as regras básicas do jogo
distorcido, Donut consome um item que lhe confere a capacidade de falar. A
partir daqui, Carl e Donut arrancam para uma aventura perigosa, na qual terão
de conquistar 18 níveis da Masmorra Mundial para conseguirem sobreviver ao fim
do mundo.
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| Ilustração de |
O primeiro livro leva-nos a
acompanhar as desaventuras de Carl e Donut nos primeiros dois níveis da
masmorra. Pelo caminho, cruzam-se com criaturas absolutamente grotescas, bosses
completamente enlouquecidos e outros aventureiros a tentar sobreviver na masmorra
(ou a tentar infernizar a vida a todos os outros jogadores). E uma das
primeiras coisas que salta logo à vista é a caracterização de cada personagem.
Obviamente que as personalidades de Carl e de Donut são muitíssimo
aprofundadas, mas cada pequena personagem que vai surgindo pelo caminho está
espetacularmente bem construída.
E depois… é tudo muito, muito
engraçado! Os protagonistas estão presos num autêntico inferno, onde a única
salvação é esmurrar, queimar, ou rebentar com todo o tipo de criaturas. Mas no
meio de tanto sangue e entranhas, está todo um tom de humor negro que faz com
que ninguém se leve a si próprio demasiado a sério dentro deste universo.
As idiotices e resmunguices de Carl.
O ego de diva que caracteriza Donut. A irritabilidade alcoólica de Mordecai. A
excentricidade hiperbolizada de Odette. E, sobretudo, o humor constrangedor de
todo o sistema de IA sempre que uma conquista é desbloqueada ou que um novo
item é analisado. Tudo isto confere uma leveza muito bem conseguida ao que
poderia muito bem ser um livro pesado e emocionalmente desgastante. O resultado
é uma aventura com um equilíbrio fenomenal, como poucas histórias conseguem,
entre momentos de tensão, de agressividade, de humor e de ternura.
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| Ilustração de Sophia Hanson ( |
Como referi, Dungeon Crawler
Carl – o livro, e toda a série – é um LitRPG. Ou seja, no centro do
progresso narrativo e do desenvolvimento das personagens estão elementos que
encontramos em videojogos do género de desempenhos de papéis. Todas as
personagens têm um nível geral, que vai subindo à medida que matam goblins
viciados em metanfetaminas, ou lamas que cospem lava. Depois, têm também uma
data de características com níveis associados, e que não fogem muito do que
vemos em jogos (força, inteligência, por aí fora). Adicionalmente, ainda têm
itens que conferem vantagens (ou desvantagens) especiais, e podem ir aprendendo
uma panóplia de habilidades que podem ir sendo aprimoradas.
É um sistema enganadoramente
complexo, mas bem integrado na narrativa. Complexo porque a variedade de
estatísticas, de habilidades e de (des)vantagens é MUITO vasta. Confesso que,
ficando uns dias sem ler, acabava por perder o fio à meada acerca de quais as
habilidades ou quais os itens que cada personagem tinha – sobretudo quando
tinha sido algo adquirido muito no início, mas utilizado apenas numa ocasião
específica.
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| Ilustração de |
No entanto, a boa integração na
narrativa vem do facto de, muitas vezes, Carl e Donut tomarem decisões acerca
do que explorar ou de quem enfrentar com base no que precisavam. Por exemplo,
aconteceu descobrirem um boss que guarda as escadas para o nível seguinte, e,
então, decidirem ir farmar níveis ou aprimorar uma habilidade que
adivinhavam vir a ser útil para esse confronto.
Apesar desta boa integração, pode
dizer-se que Dungeon Crawler Carl sofre um pouco da síndrome de primeira
entrada. Ou seja, o facto de ser o primeiro livro de uma série longa leva a que
exista uma quantidade de exposição muito grande. Como mencionei, há muitos
sistemas e muitas regras envolvidos neste jogo macabro. Assim sendo, é
inevitável o primeiro livro ter de dedicar uma boa dose do seu volume a
estabelecê-los e a garantir que os leitores entendem tudo o que está em jogo.
Esses momentos são sempre leves, uma vez que, regra geral, a informação é
transmitida ao leitor através de diálogos divertidos. Mas, ainda assim, há
muito para transmitir.
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| Ilustração de |
E, acima de tudo, acontece algo que
não aprecio muito em histórias. Há muitas especificidades da Masmorra Mundo que
são referidas ao de leve, seja por Mordecai, seja pela descrição de itens, e
que são, de seguida, postas de lado. Por exemplo, ficamos logo a saber que Carl
e Donut terão, eventualmente, de escolher uma classe e uma raça para as suas
personagens – mas apenas terão de se preocupar com isso no nível 3 da Masmorra.
Ou que haverá, eventualmente, uma enorme guerra entre várias fações – mas falamos
disso quando chegarem ao nível 9 da Masmorra.
Por um lado, isto começa a criar
expectativa no leitor, aguçando a curiosidade para chegar a esse ponto da
aventura de Carl e Donut para ver qual a classe que escolherão, ou qual a fação
pela qual irão alinhar. Por outro, está a dar ímpeto a fios narrativos que
apenas serão endereçados no livro seguinte, ou, até, dentro de sabe-se lá
quantos livros. Adicionalmente, há vários momentos em que a história indicia
haver tensões entre as megacorporações galácticas que tomam partidos e que
investem neste jogo – incluindo a que está a organizar esta versão da Masmorra
Mundo. Aí, então, não faço mesmo a mais pequena ideia de quando esse fio
narrativo vai começar a ver desenvolvimentos significativos.
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| Ilustração de |
Entendo a necessidade de plantar
sementes para o que vem depois. Não sou completamente contra isso. Mas este
primeiro livro planta demasiadas sementes que apenas darão frutos noutras
obras. Como leitor, e como apreciador de boas narrativas, isso foi algo que não
me caiu muito bem. Gostava que houvesse mais sementes a dar frutos no final
deste livro, ou que alguns desses fios narrativos começassem a ser introduzidos
mais adiante na série.
De referir que, para o efeito,
estou a ler os livros Dungeon Crawler Carl em inglês (a sua língua
original). No entanto, há que destacar que esta série está, atualmente, a ser
traduzida para português de Portugal. O primeiro livro, cujo título em
português é “Carl, o Herói das Masmorras”, já se encontra disponível, tendo
sido editado em março de 2026 pela editora Kathartika. A mesma editora lançará,
ainda, o segundo livro desta série, intitulado “O Juízo Final de Carl” (Carl’s
Doomsday Scenario, em inglês) no dia 19 de novembro deste ano. Embora não
esteja a ler esta obra traduzida, incentivo qualquer um que tenha ficado
curioso a apoiar a iniciativa desta editora em traduzir esta, e outras grandes
obras de fantasia e ficção científica.
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| Ilustração de |
Conclusão
Dungeon Crawler Carl, de Matt Dinniman, é um ótimo livro.
Está cheio de passagens memoráveis que tão depressa me arrancam uma gargalhada
forte o suficiente para pôr toda a carruagem do metro a olhar para mim como se
tivesse acabado de escapar de um asilo psiquiátrico, como me põem o coração a acelerar
porque não quero que uma personagem sucumba e desapareça da história. Há revelações
chocantes de tão imaginativas que são, personagens que já odeio de morte, e
personagens pelas quais quase estaria disposto a pôr a minha vida em risco. E,
acima de tudo, é uma leitura viciante. Acreditem, quando acabarem, vão logo
querer mais!
O Melhor:
·
Viva
a Princesa Donut!
·
Personagens
memoráveis e com desenvolvimento notável
·
Universo
fascinante e coerente
·
Sentido
de humor delicioso a contrapor com a opressão e violência
·
Mais
uma vez, viva a Princesa Donut!
O Pior:
· A introdução
das regras e lógica deste universo é muito extensa
·
Inicia
uma série de fios narrativos que ficam no ar
Nota GameForces: 9/10
Título: Dungeon Crawler Carl
Autor: Matt Dinniman
Ano de Lançamento: 2020
Editora: Penguin Books
Editora em Português: Kathartika
Autor da Análise: Filipe Castro Mesquita
Análise | Dungeon Crawler Carl – Um LitRPG Tão Caótico Quanto Divertido
Reviewed by Filipe Castro Mesquita
on
novembro 03, 2026
Rating:
Reviewed by Filipe Castro Mesquita
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novembro 03, 2026
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