Sou um fã de RPGs. É o meu género de videojogos predileto e tento jogar um pouco de todos os estilos dentro do género. Quando o tema é Dragon Quest, tenho realmente boas memórias de títulos marcantes, mas havia uma pedra no meu sapato: nunca tinha jogado os primeiros, apesar de ter jogado outros títulos da mesma era. Condenem-me, atirem-me pedras — se calhar mereço. Era uma promessa que tinha feito a mim próprio, mas que ia ficando para trás ano após ano. Com o surgimento desta versão HD-2D Remake, senti finalmente que era a hora de descalçar-me e viver a história que moldou toda uma saga.
É precisamente a partir desta experiência que me deparei com uma reflexão inevitável. Ao revisitar estes clássicos através de uma abordagem moderna, surge uma pergunta essencial: será que estes dois RPGs, com quase quarenta anos de história, ainda têm lugar no panorama atual do género? É uma questão que não serve apenas para contextualizar o remake, mas que me parece crucial para compreender o seu propósito — tanto para veteranos como para quem chega pela primeira vez.
A resposta, felizmente ou infelizmente, não é tão clara como um “sim” ou “não”, e poderá sempre depender do estado de espírito com que cada jogador os aborda. Talvez por isso o trabalho de reimaginar estes títulos em HD-2D seja tão fascinante. Este remake funciona como ponte entre duas eras (bem distantes entre elas) dos videojogos, contrastando o design puro e minimalista dos originais com as expectativas de um público moderno, entregando uma experiência que respeita a herança mas que também se abre a quem nunca tocou num Dragon Quest clássico — como foi, no fundo, o meu caso.
Dragon Quest I continua a ser um RPG de estrutura minimalista, centrado num herói solitário que atravessa um mundo perigoso numa busca relativamente direta. Já Dragon Quest II expande a escala, introduzindo um grupo de protagonistas, mais zonas, mas também inimigos mais difíceis e um mundo que exige maior planeamento. Esta diferença fundamental entre os dois jogos torna a experiência do remake ainda mais interessante, pois permite perceber a evolução da série (ainda que curta) desde os primeiros passos até à expansão do seu universo.
No panorama atual dos RPGs, onde títulos como Baldur’s Gate 3, Persona 5 ou Octopath Traveler definem padrões de densidade narrativa, sistemática e emocional, Dragon Quest I & II HD-2D Remake posiciona-se quase como um museu interativo — uma experiência para quem quer perceber onde tudo começou. Estes jogos têm certamente lugar nos dias de hoje, embora num espaço assumidamente mais de nicho: são produtos concebidos antes das grandes revoluções do género e mantêm esse ADN, mesmo quando apresentados com uma estética atualizada. Ainda assim, as suas campanhas curtas e diretas podem ser uma vantagem num mercado repleto de epopeias gigantescas que exigem dezenas ou centenas de horas.
A Square Enix continua a apostar forte na preservação das suas obras clássicas, e DRAGON QUEST I & II HD-2D Remake surge como uma das tentativas mais ambiciosas de trazer o legado da série para uma nova geração. Tal como aconteceu com DRAGON QUEST III HD-2D, este novo pacote recria as primeiras aventuras da franquia com o estilo visual que o estúdio tornou emblemático: pixel art de alta resolução combinada com iluminação volumétrica, profundidade em camadas e animações mais contemporâneas. O objetivo é claro — manter a alma da série, mas apresentá-la com uma roupagem capaz de agradar tanto a veteranos como a jogadores mais jovens.
É dentro deste equilíbrio entre passado e presente que o remake revela a sua maior força. A narrativa mantém-se fiel às raízes: simples, direta e quase ingénua, funcionando como cápsula do tempo de um género anterior às ambições cinematográficas. Porém, a estética HD-2D acrescenta subtileza emocional ao que antes era puramente funcional. Diálogos curtos ganham peso através da iluminação cuidada, enquadramentos expressivos e animações discretas que reforçam a atmosfera sem trair a intenção original.
A jogabilidade segue o mesmo princípio de respeito pela essência. O combate por turnos permanece tradicional até ao osso, mas temos a opção de acelerar o ritmo, as transições mais fluidas e a qualidade de vida foi amplamente aprimorada. A navegação é mais intuitiva, a interface mais clara, e o atrito das versões de 8 bits foi praticamente eliminado. Fica evidente que o que envelheceu nunca foram as ideias, mas sim as limitações técnicas — limitações agora deixadas para trás.
Visualmente, o remake demonstra porque o HD-2D continua a ser uma das direções artísticas mais eficazes para revitalizar clássicos. A profundidade dos cenários, a riqueza das cores, o brilho das magias e os detalhes ambientais tornam cada local memorável de uma forma impossível nos originais. A banda sonora, reorganizada e remasterizada, reforça esta modernização com novos arranjos que preservam a alma dos temas icónicos enquanto lhes dão força renovada.
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Fazendo uma pesquisa e comparando com os títulos de 1986 e 1987, percebe-se que este não é apenas um polimento visual, mas um renascimento pensado ao pormenor. A estrutura e o espírito permanecem intactos; o que muda é a forma como tudo se apresenta. Para veteranos que jogaram estes títulos na altura dos seus lançamentos, acredito que seja como revisitar memórias com os óculos limpos. Para novos jogadores, é finalmente possível entender porque estes clássicos foram tão influentes.
E regressando à questão inicial — na minha opinião, sim, estes RPGs ainda têm lugar no género moderno, embora reconheça que não sejam para todos. Para apreciar um título destes, é preciso ir com mente aberta e aceitar que simplicidade não é defeito, mas identidade. Talvez não disputem o topo das conversas sobre inovação ou complexidade, mas continuam a oferecer algo que muitos jogos modernos esquecem: design claro, objetivo e direto ao ponto, onde cada passo da progressão se sente significativo. Em 2025, essa simplicidade acaba por ser quase refrescante.
Conclusão
No fim de contas, Dragon Quest I & II HD-2D Remake consegue equilibrar tradição e modernidade de forma exemplar. Respeita as fundações do género, ao mesmo tempo que lhes dá nova vida através de uma apresentação visual e mecânica atualizada. É um tributo às raízes dos JRPGs, funcionando tanto como porta de entrada para quem nunca jogou os originais, como um regresso caloroso para quem cresceu com a série. Mais do que nostalgia, este remake prova que os clássicos continuam a ter impacto — desde que recebam o cuidado e a sensibilidade evidentes neste trabalho da Square Enix.
O melhor
Fidelidade ao espírito original;
Qualidade de vida aprimorada;
Banda sonora remasterizada;
O pior
Apelo limitado a um nicho;
Nota do GameForces: 8/10
Título: DRAGON QUEST I & II HD-2D Remake
Desenvolvedora: Artdink / Square Enix
Editora: Square Enix
Ano: 2025
Autor da Análise: Filipe Martins
Nota: Esta análise foi realizada com base na versão digital para a PlayStation 5, através de um código gentilmente cedido pela editora.
Análise | DRAGON QUEST I & II HD-2D Remake - Uma pedra fora do meu sapato
Reviewed by Filipe Martins
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novembro 28, 2025
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