Segunda Opinião | Death Stranding – Um Enorme Tropeção

Norman Reedus a chorar porque sabe o que está a fazer aos jogadores de Death Stranding (e porque provavelmente haverá uma sequela)

Deixem-me falar-vos um pouco sobre mim. Eu sou uma pessoa que faz psicoterapia, e é algo que me tem ajudado imenso na minha vida diária. Estou muito mais resistente à frustração, consigo filtrar bem melhor os problemas cuja resolução estão ao meu alcance, estou muito mais capaz de gerir as minhas emoções e a identificar estratégias para lidar com elas sem que estas me consumam, entre várias outras melhorias que sinto que atingi. Pois hoje, permitam-me prejudicar todo este trabalho de desenvolvimento pessoal e falar-vos da última grande frustração que tive com os videojogos – Death Stranding.

Sim, ao contrário do nosso carismático Carlos Cabrita, que apreciou bastante Death Stranding: Director’s Cut e que escreveu uma belíssima análise sobre o mesmo, eu desprezo profundamente a mais recente… coisa de Kojima. Tanta gente vê este jogo como uma obra-prima, mas como é que isso é possível quando… Não, não, vá, não vou já começar a achincalhar o jogo, tenho de começar isto de forma, apesar de tudo, ponderada. Por isso, venham comigo nesta aventura onde deixarei a raiva contaminar as minhas palavras, e onde garantirei ao meu psicólogo mais uns quantos anos de rendimento. Vamos a isso!

Eu, quando me apercebi do que ia ser a experiência de Death Stranding

Vamos já começar por esclarecer algo importante: não, não vou estar a dar uma segunda opinião sobre a mesma versão do jogo que foi aqui analisado. Por um motivo muito simples: nunca mais me apanharão a jogar Death Stranding, nem que me ofereçam toda a fortuna no Elon Musk mais umas pastilhas Gorila de melancia. Portanto, vou falar da versão PS4 do… jogo originalmente lançado em 2019, e que joguei durante o verão de 2020. “Então, mas se não o voltas a jogar, como é que vais falar dele em 2022?” Oh, acreditem que ainda tenho tudo muito vivo na memória, para mal dos meus pecados. Nota editorial: e de todos os nossos, que isto deu uma trabalheira desgraçada a editar, como irão perceber.

Mas vá, para não correr o risco de me acharem desequilibrado, o que poderia ser um risco real, vou começar por olhar para o que Death Stranding faz bem. Visualmente é uma obra estonteante. Lembro-me bem de estar a jogar numa PS4 base, daquelas velhinhas, e ficar sem fôlego perante as vistas incrivelmente detalhadas e quase foto realistas. As animações também são exímias, os designs dos monstros são imponentes e aterradores, enfim, tudo o que diz respeito à vertente gráfica do jogo é exemplar a todos os níveis. A história em si também não é má, mesmo com os típicos twists que nos fazem exclamar, “Mas que c-.” Nota editorial: olha a linguagem, Filipe… As personagens são interessantes, a história é dramática, e aquela deixa da “princesa praia” (quem perceber, percebeu) sacou-me uma boa gargalhada. E fim. Que comece o chafurdar na m-! Nota editorial: linguagem outra vez, Filipe…

Eu, quando alguém me diz que Death Stranding é um bom jogo

Então, quais é que são os pecados de Death Stranding? A jogabilidade, meus caros. TODA a jogabilidade. Não encontro nada de bom para apontar à jogabilidade, bem pelo contrário, só me apetece praguejar quando penso na mesma. Sabem quando uma jogabilidade é difícil e nos desafia a estudar melhor como ultrapassar um obstáculo, motivando-nos a melhorar e a dominar as mecânicas para depois obter uma sensação de conquista? Esqueçam isso. Sabem quando uma jogabilidade é simples, mas divertida? Aqui encontram zero disso. Ou quando uma jogabilidade não é nada de especial, mas tem valor ao coadunar-se bem com a temática do jogo, mesmo que para isso pareça estar presa por arames? Errado outra vez, neste caso. A maneira mais simpática com que consigo descrever a jogabilidade de Death Stranding é assim: --- Nota editorial: NÃO, Filipe, não podemos deixar que escrevas isto!

Ok, isto foi uma boa catarse, mesmo que tenha, sem querer, chateado alguns húngaros. Mas vamos ao porquê de a jogabilidade ser aquilo tudo que gritei exaustivamente no parágrafo anterior. Esta é daquelas jogabilidades que não desafia, simplesmente perturba. Ter de andar pelo mundo a entregar encomendas e a voltar a conectar o mundo nunca é desafiante, é só irritante. Colocaste mal uma caixa na mochila de Sam? Upa, lá vais tu a rebolar pela colina que demoraste 7 minutos a trepar. Ah, e estragaste a caixa da encomenda e o que ela continha, tens de voltar para a base da qual saíste há 20 minutos. Olha, e no regresso à base estragaste o teu último par de sapatos, tornando tudo AINDA mais difícil. Oh, e não fizeste exatamente o mesmo caminho no regresso, andaste meio metro para o lado e agora tens um monstro a querer comer-te! Que divertido! Só que não!

Eu, quando alguém me diz que também não gosta de Death Stranding

E não me venham com a história de que “é suposto ser difícil,” porque “a humanidade está sempre desunida” ou porque “é suposto ser uma experiência contemplativa,” ou ainda porque “está a tentar introduzir algum realismo na tarefa hercúlea do protagonista!” Sabem o que pode fazer a essas desculpas? Podem e- Nota editorial: Filipe, não toleramos insultos, muito menos dirigidos aos nossos leitores! Nada justifica (e agora imaginem-me a gesticular erraticamente na direção de uma caixa do jogo) isto! Não me diverti durante um único segundo da travessia pelo mundo, e ao concluir uma missão nunca rejubilava – só gritava “Finalmente, f-” Nota editorial: NÃO, FILIPE!

“Ah, mas então e os veículos que, às tantas, podes usar?” Sim, os mesmos que parecem feitos de papel molhado? E que são mais difíceis de manobrar do que um camião TIR nas ruelas apertadas da baixa pombalina de Lisboa? Sim, são ligeiramente menos frustrantes do que colocar aleatoriamente mal o pé e escorregar por uma montanha abaixo, mas continuam a não ser minimamente divertidos. A quantidade de vezes que uma mota ficou sem energia quase exatamente a meio do percurso, e a inutilidade destes veículos (mesmo dos pequenos reboques que podemos usar) nas áreas do mapa que são mais acidentadas e, portanto, mais intoleráveis, tornou sempre estas opções muito limitadas e quase nunca viáveis.

Imagem de Sonic 06, um jogo que acho melhor e que prefiro jogar em vez de Death Stranding

Nem o combate se safa da minha fúria, muito honestamente. Nem é pelas mecânicas serem más, são divinas quando comparadas com o resto – o problema é coordená-las com esse resto. O cuidado que temos de ter com o terreno não é minimamente atenuado, e se levamos um soco de um inimigo humano ou uma patada de um dos monstros sobrenaturais, lá se podem ir todas as caixas que carregamos connosco. Disparar balas de sangue ou atirar granadas de urina até é giro, mas o risco de perder tudo o que transporto era sempre tão grande, que preferia sempre optar pela via furtiva. Mas mesmo nessa, um passo em falso e lá ia Sam a rebolar por uma colina abaixo que nem um f- Nota editorial: Acabaram-se os avisos, Filipe! E para de gritar censura enquanto puxas os cabelos, pareces uma criança birrenta!

Mas esperem, porque este é um jogo de todo um novo género! Kojima inventou um jogo de “strands,” onde os jogadores se ajudam mutuamente, construindo estradas ou colocando escadotes ou cordas pelo caminho que são replicados nas campanhas de vários outros jogadores. Pois bem, ou me calhou um servidor cheio de pessoas incrivelmente egoístas, ou um cheio de pessoas bem mais inteligentes do que eu. Porque encontrei praticamente NADA feito. Nas 30 e tal horas de jogo, devo ter encontrado 5 escadotes e um depósito com uma quantidade mínima dos recursos necessários para construir uma estrada. Portanto, ou o meu servidor estava cheio de pessoas que perceberam que o jogo não valia a pena e pararam de jogar bem cedo, ou de pessoal à espera que alguém fizesse tudo por eles, egoístas do c- Nota editorial: Ok, chega, isto acaba aqui, não vamos deixar que o Filipe escreva mais.

Eu, quando finalmente cheguei aos créditos de Death Stranding

Conclusões
Falando mais a sério, e posta toda a brincadeira do texto que acabaram de ler, não gosto de Death Stranding. Kojima é obviamente uma pessoa incrivelmente criativa, o que se nota nota não só pelo que fez durante décadas com Metal Gear, mas também por tudo o que colocou neste jogo para tornar todo o mundo e as suas personagens incrivelmente interessantes. Mas detesto jogos que me importunam em vez de me desafiar, e este é um deles. Adorei a história e todo o significado com que esta vinha carregada, as personagens e todos os desempenhos dos excelentes atores envolvidos, portanto claramente há aqui muito mérito. Mas não consigo mesmo atinar com as mecânicas de jogo, que me deixaram frustrado durante quase a totalidade das sequências jogáveis.

Espero que tenham gostado desta brincadeira, que se tenham divertido com, da minha persona estilo Angry Video Game Nerd, e todas as piadas que fui fazendo com as notas editoriais para que, ainda assim, o texto ficasse “family friendly.” Ou seja, não, ninguém me censurou, faz tudo parte da magia de produção. Lamento ter revelado o que se passa atrás da cortina. Obrigado pela leitura e por todo o vosso apoio até agora, e espero que continuem a apoiar este projeto, para que no 5º aniversário estejamos aqui a fazer coisas ainda mais loucas!

PS: Permitam-me terminar com uma nota de pesar e uma homenagem. Há alguns dias, faleceu Ryan Karazija, compositor e vocalista da banda Low Roar. Para quem não sabe, Death Stranding licenciou e utilizou várias das músicas post-rock e eletrónicas desta banda, que apresentam um som que sobressai graças às raízes islandesas dos vários elementos que a compõem. O resultado foi uma banda sonora distinta que complementa lindamente o mundo que a Kojima Productions criou. Que Ryan Karazija descanse em paz e que a sua família e amigos encontrem a força que precisam para lidar com este momento dificílimo. Em meu nome, e em nome da GameForces, enviamos um forte abraço a todos os que estão a sofrer com esta perda.

Pontuação do Filipe – 5/10 Nota editorial: porque o obrigamos a ser ponderado

Título: Death Stranding
Desenvolvedora: Kojima Productions
Publicadora: PlayStation Studios
Ano: 2019

Autor da Segunda Opinião (e da opinião correta): Filipe Castro Mesquita
Segunda Opinião | Death Stranding – Um Enorme Tropeção Segunda Opinião | Death Stranding – Um Enorme Tropeção Reviewed by Filipe Castro Mesquita on novembro 03, 2022 Rating: 5

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